Nascemos sabendo os números?

Por Gabriel Fernandes - 25/03/2021

Revisado por Jéssica

    Aprender a realizar operações matemáticas básicas parece uma habilidade útil e necessária para a vida humana. Os próprios números são tão essenciais (e até mesmo naturais) para nossa comunicação que podem parecer um conhecimento inato, isto é, algo que já nascemos sabendo. Mas, por mais que essa afirmação possa parecer verdadeira, ela é falsa. Os números e toda a lógica por detrás deles são ensinados e - caso nunca tivéssemos ouvido sobre o conceito de números - não poderíamos entender a diferença entre as quantidades. Este é o caso, por exemplo, dos pirarrãs, um povo indígena que habita a Floresta Amazônica.

   O idioma falado pelos pirarrãs não possui palavras que descrevem números e, por essa razão, os pirarrãs não poderiam responder quantos dedos têm nas mãos, ainda que saibam como suas próprias mãos se parecem.  Em sua comunicação, são capazes de distinguir entre o que é pouco  e o que é muito, mas até mesmo esses conceitos são abstratos e situacionais, não servindo para realmente medir quantidades. Para se entender o que é a língua dos pirarrãs, existem três palavras que poderiam lembrar algo próximo de quantidade, mas os próprios termos são imprecisos [1]: Hói indica uma noção de “um pouco”, hoí indica uma noção de “um pouco mais” enquanto baágiso indica “muito”.

   Seria possível, então, viver sem somar ou subtrair? Sem saber exatamente quanto de cada coisa se possui? Mesmo com uma linguagem anumérica será que existe algum conceito que possa ser reconhecido como uma lógica matemática entre os membros da tribo? Algo próximo de um conhecimento natural a todos os humanos, independente da forma com que são criados? De acordo com os estudos do linguista e antropologista estadunidense Dr. Daniel Everett, que conviveu com os pirarrãs entre os anos 70 e 80 e realizou diversos testes a fim de responder essas perguntas, a resposta é não. Os resultados obtidos pelo cientista no decorrer dos anos foram publicados na revista científica Current Anthropology em 2005 [1], aguçando o interesse da comunidade científica sobre esse povo e sua cultura única.

   Em um dos testes realizados pelo filho de D. Everett, o Dr. Caleb Everett, o pesquisador enfileirava objetos idênticos e depois pedia para que a mesma fila de objetos fosse refeita por um membro da tribo [2]. Enquanto a fila era composta por um, dois ou três itens, não havia erro, mas se a fila-exemplo tivesse mais que 3 objetos, os erros se tornavam cada vez mais comuns e aleatórios, sem seguir um padrão consistente. Mesmo quando a fila-exemplo continuava à vista, os erros permaneciam. Em outro teste, este não visual - o pesquisador batia palmas um determinado número de vezes e pedia para que um membro da tribo repetisse o mesmo número de palmas. Novamente, para sequências de palmas maiores que 3, os erros começavam a aparecer [3].

   Os resultados apresentados nos testes realizados com o povo pirarrã são muito próximos do comportamento demonstrado por bebês passando pelo estágio pré-linguístico, isto é, o estágio no qual se começa a expressar as primeiras palavras com significado, ainda longe da comunicação fluente. Crianças nesse estágio também podem - como os pirarrãs - ter uma ideia pré-concebida dos números 1, 2 e 3 e entender a diferença entre pouco ou muito, mas - por ainda não entenderem a lógica numérica - não poderiam conectar esses dois mundos diferentes, isto é, o “mundo do 1, 2, 3” e o “mundo do pouco ou muito”. Nesse sentido, as pesquisas de D. Everett reforçam a tese de que linguagens numéricas conectam essas duas habilidades, introduzindo um conjunto de números que nos permitem diferenciar quantidades e abandonar descrições pouco exatas como “muito” ou “pouco”.

   Os pirarrãs não falam outro idioma que não sua língua materna e a explicação por trás da preservação de sua língua por tantos anos talvez esteja justamente na forma como se comunicam: Como os pirarrãs não entendem o conceito de número, idiomas como o português e o espanhol não soam naturais para esse povo, o que faz com que não compreendam outro idioma além do deles, preservando assim sua identidade e cultura.

   Estudos como esse mostram quão desafiadora é a tarefa de se encontrar um denominador comum para a cultura humana, que aflora de diferentes formas em todo o mundo, com suas similaridades e diferenças. Não devemos entender nossa própria cultura como sendo superior ou inferior à cultura pirarrã ou a qualquer outra, mas, pelo contrário, contemplar como a cultura humana é extensa e bela. Os pirarrãs podem não saber números como sabemos em nossa sociedade, mas entendem muito mais de simplicidade - e talvez até do significado da vida - do que nós.

 

Referências

  1. D. L. Everett, Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã, Current Anthropology 46, 4 (2005).

  2. C. Everett, K. Madora. Quantity Recognition Among Speakers of an Anumeric Language, Cognitive Science, 36 (2012).

  3. M. Vuolo. What Happens When a Language Has No Numbers?. Slate. 16 de out. de 2013. Disponível em: <https://slate.com/human-interest/2013/10/piraha-cognitive-anumeracy-in-a- language-without-numbers.html>. Acesso em: 08/03/2021.