Nanismo psicossocial

Por Camila de Abreu Silva - 15/03/2020

   O crescimento é um estágio de grande importância no desenvolvimento humano, sendo regulado por fatores genéticos, hormonais, nutricionais e até mesmo psicológicos. Fisiologicamente, o fator primordial para o crescimento é a síntese do hormônio de crescimento (GH). Este hormônio é produzido em uma glândula localizada na parte inferior do cérebro, chamada hipófise, e sua produção só é possível através do controle exercido pelo hipotálamo, área do encéfalo que coordena funções hormonais e vitais para o organismo, como temperatura, apetite, sede e ciclo do sono. Esta região do encéfalo produz outros hormônios que atuam como fatores de estimulação ou de inibição ao GH: o hormônio liberador de GH, o GHRH, e o inibidor de GH, a somatostatina. Simplificando: o hormônio de crescimento só será liberado caso o hipotálamo permita. 

    Como já enfatizado em seu nome, o hormônio induzirá o crescimento, promovendo o aumento da cartilagem, do esqueleto e de outros tecidos do corpo, além de promover a proliferação celular. Quando há alguma deficiência na síntese de GH, o indivíduo desenvolve uma condição chamada nanismo, resultando em uma estatura muito abaixo da média da população. O nanismo provocado por alterações fisiológicas já é muito conhecido e bem elucidado. Contudo, poucos sabem que o fator emocional também pode desencadear o transtorno, nomeado como nanismo psicossocial.

    Crianças submetidas a abusos e traumas psicológicos são suscetíveis a desenvolverem nanismo psicossocial. Estas, apresentam um severo retardo no crescimento, não aparentando possuírem a idade que têm. Jovens com esse distúrbio também apresentam uma alimentação descontrolada (apetite voraz), incluindo o hábito de alimentar-se de comida encontrada no lixo e até comida destinada a animais domésticos. Como consequência, vomitam descontroladamente. Dor crônica, anorexia, irritabilidade, atraso no desenvolvimento da linguagem e QI abaixo da média também são relatados nos estudos científicos elaborados. 

   O mecanismo responsável por causar a deficiência da produção de GH a partir de danos psicológicos e estresse exacerbado durante o desenvolvimento infantil ainda é investigado. Contudo, ao longo dos anos, alguns pesquisadores teorizaram possíveis explicações:

  • Em 1947, Talbot e sua equipe publicaram um artigo que sugere que os danos provocados à hipófise não eram causados diretamente pelos problemas emocionais e psicológicos, mas sim pela nutrição deficiente em decorrência à criança estar inserida em um lar problemático;

  • Em 1961, Patton e Gardner sugeriram que a produção e liberação dos hormônios da hipófise sofriam grande influência de áreas do encéfalo responsáveis por coordenar os sentimentos emotivos, que são o córtex límbico e a amígdala cerebral;

  • Em 1980, Gardner teorizou que poderia haver correlação com a liberação em baixos níveis do hormônio ACTH (corticotrofina). Este hormônio também é produzido na hipófise e controlado pelo hipotálamo. Evidências científicas mostraram que crianças com nanismo em ambientes desfavoráveis liberavam ACTH em baixas quantidades. Quando inseridas em um ambiente favorável, foi notado que a síntese de ACTH tornou-se normal e o crescimento das crianças retomou. 

   Um artigo na revista Nature foi publicado em 1993, acerca de um estudo clínico realizado com 66 crianças com idade média de 6 anos que tinham sintomas de nanismo psicossocial. Dentre estas, 67% dividiam a moradia com três ou mais crianças, 45% eram filhas de pais divorciados e 31% tinham um pai desempregado. Do total de 66 crianças, fora analisado em 56 destas a massa corpórea ao nascer: somente 29% destas nasceram pesando mais do que 3 quilogramas, e 21% nasceram prematuros. Outra informação importante é que 60% do número total destes jovens já foram encaminhados ao serviço social. No decorrer do estudo, todos foram divididos em três grupos: A, B e C. No grupo A, foram inseridos 27 pacientes que já sofreram abuso sexual ou físico. No grupo B, foram colocados 15 pacientes em que houve a suspeita, porém não a confirmação, de algum tipo de abuso. No grupo C, continha 23 pacientes, nas quais estes tinham em comum a privação emocional. Os resultados do estudo estabeleceram que nas crianças do grupo A, os sintomas de nanismo psicossocial eram mais intensos quando comparados com as de crianças do grupo C, tendo maiores problemas comportamentais, hábitos alimentares mais estranhos e maior frequência nos casos de enurese noturna e de hábitos pouco higiênicos. 

   O ser humano, sendo um primata racional, complexo e de inteligência avançada, necessita excessivamente criar laços sociais e afetivos. Quando juvenis, é imprescindível o cuidado parental. Logo, quando há a falta deste zelo, o indivíduo é acometido significativamente por falhas no desenvolvimento, tornando-se um elo frágil em comparação a outros indivíduos da mesma espécie. 

Referências Bibliográficas

BERNE, Robert M.; LEVY, Matthew N.; KOEPPEN, Bruce M. Berne & levy physiology. Elsevier Brasil, 2008.

 

GREEN, Wayne H.; CAMPBELL, Magda; DAVID, Raphael. Psychosocial dwarfism: A critical review of the evidence. Journal of the American Academy of Child Psychiatry, v. 23, n. 1, p. 39-48, 1984.

 

Stanhope, R., Hamill, G., Skuse, D. et al. CLINICAL EXPERIENCE OF PSYCHO-SOCIAL DWARFISM. Pediatr Res 33, S55 (1993). https://doi.org/10.1203/00006450-199305001-00312

 

https://drauziovarella.uol.com.br/corpo-humano/hipotalamo/

https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/hormonio-do-crescimento-entrevista/

Imagem: "Tyrion Lannister" by Mark Hammermeister is licensed under CC BY-NC-ND 4.0