Mulheres, mães e cientistas na pandemia

Escrito por: Jéssica Palácio Arraes

Revisado por: Francis M. F. Nunes

    A pandemia do coronavírus SARS-CoV-2 e seus impactos escancararam diversos abismos sociais arraigados na realidade de radical desigualdade do Brasil. Além de toda a precariedade de diferentes questões, desde as sanitárias, de infraestrutura até de políticas públicas, temos observado várias chagas de um passado colonial não tão distante e de uma frágil democracia que necessita de constante reafirmação diante de uma crise global.

   Voltaram à tona problemáticas como a falta de saneamento básico, condições inadequadas de moradia e emprego, falta de acesso à saúde e educação de qualidade a uma parcela significativa da população e até mesmo o retorno de fantasmas aparentemente esquecidos como a fome e a insegurança alimentar. Estas e outras tantas questões (re)emergiram juntamente com a disseminação do vírus e evidenciaram problemas graves que estavam invisibilizados até então. A partir deste contexto pudemos notar que ainda habitamos um dos países com uma das maiores desigualdades sociais do mundo em que voga o patriarcado como uma das marcas ainda presentes em nossa realidade.

    Diante deste cenário, enfatizamos o papel fundamental da mulher no enfrentamento a esta hecatombe, tanto como maioria nas funções de combate ao vírus e à doença na linha de frente, quanto imprescindíveis cuidadoras de vulneráveis (como crianças, idosos e pessoas com deficiência) dentro da própria família. Dados da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam as mulheres como 70% da força de trabalho na área da saúde, correspondendo, no contexto brasileiro, a 85% no campo da enfermagem e o mesmo índice para cuidadoras de idosos (MENDES, 2020)¹.

   Já não bastasse este protagonismo árduo, as mulheres também se destacam nas pesquisas relacionadas ao enfrentamento desta crise. E, neste momento em que a ciência tem sido basilar, pesquisadoras e pesquisadores de todo o mundo ainda tiveram que lidar com o obstáculo do negacionismo e obscurantismo da população em relação ao seu trabalho. No Brasil, especificamente, ser cientista e permanecer na profissão se tornou um desafio diante de permanentes ataques e redução de investimentos em Ciência, Tecnologia e Educação desde 2013, mas agravando-se profundamente desde 2019, 

justamente num dos momentos em que a pesquisa se tornaria fundamental para definir o rumo da História da humanidade de forma tão contundente.

    O papel da mulher, mãe, cientista, cuidadora, dona de casa e chefe de família passou então a representar riscos físicos e psicológicos devido à sobrecarga de trabalho de quem já enfrentava jornadas exaustivas entre a carreira profissional, acadêmica, cuidados com os outros, tarefas domésticas, responsabilidades parentais, entre tantas outras funções atribuídas exclusivamente às mulheres de maneira sexista.  Ademais, diante da pandemia viram-se responsáveis, também, pela educação formal dos filhos dentro de casa, por vezes competindo com os compromissos do trabalho remoto a que muitas ficaram sujeitas. “A educação (domiciliar, à distância) soma-se a esta carga de preocupação que acaba por se agravar quando mães são também professoras.” (OLIVEIRA, 2020, p. 161)². Mulheres que dependiam da escola como um lugar seguro para deixar os filhos enquanto trabalhavam perderam sua fonte de renda. Mães-solo que não têm algum familiar ou alguém de confiança para ajudar nos cuidados com os seus filhos foram profundamente afetadas profissionalmente. Mulheres que estavam em um relacionamento em que o/a cônjuge tinha uma posição mais estável de carreira tiveram de abdicar de seus planos em detrimento do/da parceiro/a.

    Os índices de violência doméstica dispararam pois as vítimas passaram a conviver com os/as agressores/as o dia todo dentro de casa, provavelmente culminando em frequentes conflitos e ambientes hostis. A insegurança e abandono por parte do poder público deixou a parte mais vulnerável da sociedade à própria sorte, entregues ao desemprego e sem fonte alternativa de renda num país em que as famílias chefiadas por mulheres representavam praticamente a metade - 48,2% - dos arranjos familiares em 2019, sendo que nos domicílios pobres correspondiam a 54% do total e esta realidade se mostra ainda mais impactante entre mulheres pretas e pardas, correspondendo a 63%³. “Mulheres negras de baixa renda são as mais atingidas pela crise econômica e sanitária provocada pela pandemia porque estão na base do sistema de cuidados exigidos tanto pela saúde pública, como na vida privada.” (OLIVEIRA, 2020, p. 157)⁴.

     Contraditoriamente, num país em que o trabalho feminino formal ou informal, profissional ou doméstico, apresenta-se como essencial, são justamente as mulheres que mais perdem em contextos de crise, afetadas por uma lógica machista e patriarcal, em que a desigualdade de gênero e etnia no mercado de trabalho empurra mulheres pretas e pobres cada vez mais para a margem da sociedade, reafirmando uma política higienista. Para Macêdo (2020)⁵ “a responsabilidade pelo trabalho doméstico formal ou não, ainda é, no Brasil, exclusivamente destinada às mulheres, representando uma desigualdade entre os gêneros masculino e feminino. Esse trabalho é marcado por dor, opressão e adoecimento, principalmente diante da naturalização da posição subalterna que a mulher ocupa na sociedade e na hierarquia da estrutura familiar tradicional, que a leva à exaustão diante dos cuidados requisitados por todos os membros da família.”

    Assim como na sociedade em geral, a ciência foi profundamente afetada pelo caos que atingiu o mundo, mas de forma muito contundente o Brasil. Assim como na sociedade em geral, a ciência foi profundamente afetada pelo caos que atingiu o mundo, mas de sobremaneira o Brasil cujo impacto negativo na produtividade das mulheres e mães cientistas, durante este período, só poderá ser dimensionado a longo prazo.  Para Bittencourt e Castro (2020)⁶, o aumento nas tarefas domésticas e parentais reduziram as possibilidades de dedicação das mulheres nas atividades de pesquisa agravados pelo afastamento da rede de apoio com que contavam antes do isolamento. No Brasil a diferença de horas dedicadas ao trabalho doméstico não remunerado por mulheres e homens é alarmante, correspondendo a 23,8 horas semanais para mulheres não ocupadas no mercado de trabalho e 12 horas para os homens na mesma situação. Entre os empregados o trabalho doméstico feminino constitui 18,5 horas e o masculino 10,3 conforme apontamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ⁷.

    No início da pandemia o estudo Parent in Science⁸ já identificava esta queda de produtividade científica e a falta de incentivo às mães pesquisadoras, que demonstrou os seguintes resultados a partir de uma pesquisa com 3.629 docentes pesquisadores e 9.970 discentes de mestrado e doutorado de Instituições de Ensino Superior do Brasil:

  • Apenas 4,1% de docentes mulheres com filhos relataram estar conseguindo trabalhar remotamente, contra 14,9% de homens na mesma situação e 25,6% sem filhos;

  • Entre os que planejaram submeter artigos científicos 47,4% das mulheres com filhos conseguiram concluir a tarefa, contra 56,4% de mulheres sem filhos, 65,3% de homens com filhos e 76% de homens sem filhos;

  • Nas fases iniciais da vida dos filhos a produtividade feminina representa praticamente metade da masculina, com 32% de submissões até o primeiro ano entre as mulheres e 61% entre os homens, e até os 6 anos de idade 28,8% para mães e 52,4% para os pais pesquisadores;

  • Apenas 2,2% de pós-doutorandas  com filhos relataram estar conseguindo trabalhar remotamente, contra 37,6% de pós-doutorandos sem filhos;

  • A submissão de artigos entre pós-doutorandas com filhos correspondeu a 34% contra 49,2% e 67,6% entre mulheres e homens sem filhos, respectivamente;

  • Entre as/os Pós-graduandos que relataram conseguir trabalhar remotamente figuram 11% de mulheres com filhos, 34,1% sem filhos, 20,6% de homens com filhos e 41,1% de homens sem filhos;

 

     O papel das mulheres no combate ao vírus, seja na linha de frente na área da saúde, na liderança de projetos de sequenciamento dos genomas de diferentes linhagens do vírus⁹, ou nos cuidados aos doentes e na educação evidenciou o protagonismo feminino e o tornou essencial. Mas apesar dos recentes avanços no número de mulheres nas ciências ainda estamos distantes de uma equidade de salário, de prestígio, de reconhecimento nos índices de capital simbólico científico e de oportunidades de ascensão na carreira. Isso ocorre principalmente quando questões pessoais como a opção pela maternidade ainda  representam um obstáculo, dicotomizando aspectos da vida que poderiam coexistir em equilíbrio desde que reconhecidos como legítimos.

    A presença feminina em todos os setores, mais especificamente nas ciências, torna-se fundamental para maior diversidade de olhares e perspectivas acerca dos problemas assentes em busca de soluções interdisciplinares e mais humanas, uma vez que diante de tantos desafios postos, somente com a contribuição de diversas trajetórias poderemos adotar estratégias coerentes à complexidade das sociedades. A representatividade, em todos os aspectos, constitui então, um dos caminhos para uma ciência e uma sociedade mais justa, humana e equitativa.

   Torna-se, portanto, um desafio para as mulheres corresponder às expectativas de maternidade, produtividade, sucesso e realização pessoal e profissional, autoafirmando-se constantemente nos diversos âmbitos da vida, com ou sem pandemia. A jornada feminina é geralmente mais exaustiva do que deveria com a sobrecarga que envolve todas as responsabilidades atribuídas à mulher e que poderiam ser compartilhadas. Diante desta realidade identificamos mulheres, mães e profissionais adoecendo física e psicologicamente e mais uma vez deveríamos nos questionar:

Quem cuida de quem cuida?

Fontes:

  1.  http://www.nepp-dh.ufrj.br/artigo_20_05_2020_doutora_Janaina.pdf . Acesso em 08/05/2021

  2.  https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/tamoios/article/view/50448/33479 Acesso em 08/05/2021

  3. https://contee.org.br/mulheres-chefes-de-familia-e-a-vulnerabilidade-a- pobreza/#:~:text=A%20maior%20parte%20das%20mulheres,do%20total%20das%20chefes%20ocupadas. Acesso em 28/04/2021

  4.  https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/tamoios/article/view/50448/33479 Acesso em 08/05/2021

  5.  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912020000200012 Acesso em 08/05/2021

  6.   https://moodleead.unifoa.edu.br/revistas/index.php/praxis/article/view/3453/2704 Acesso em 08/05/2021

  7. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/24266-mulheres-dedicam-mais-horas-aos-afazeres-domesticos-e-cuidado-de-pessoas-mesmo-em-situacoes-ocupacionais-iguais-a-dos-homens Acesso em 08/05/2021

  8. https://www.parentinscience.com/ Acesso em 08/05/2021

  9. https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2021/03/trabalho-de-mulheres-cientistas-ganha-destaque-na-pandemia.shtml. Acesso em 05/05/2021