O Perigo das Notícias Falsas

corruption-2727571_1280.webp

Por Joanna Laura - 30/03/2020

Fake News são notícias falsas que tem grande potencial de terminar em tragédias pois incitam nosso comportamento de manada, um comportamento ditado por um grupo que influencia as pessoas pertencentes a ele pela sensação de pertencimento, se eu pertenço a este grupo, logo farei o que eles fazem.

Todos estamos sujeitos ao comportamento de manada, mas de longe não é desculpa para o que aconteceu em 2014 com Fabiane Maria de Jesus que aos 33 anos foi linchada nas ruas de Guarujá, ação realizada por cinco homens, mas apoiada por dezenas de pessoas, incluindo crianças e mulheres. Como isso aconteceu em um dia particularmente normal? Acreditamos que não temos tendências homicidas, que não vamos acordar em determinado dia e pedir por um linchamento nas ruas tal qual ocorreria em uma cidade medieval.

Neste caso, tudo começou graças a notícias falsas, “fake news”. Em um grupo de facebook circulava o boato que uma mulher loira estava sequestrando crianças para realizar rituais macabros de magia negra, embora na cidade, naquele período, não houvesse sequestros registrados pela polícia. Bom, as pessoas diziam que sendo verdade ou não, deveriam ter cuidado. O resultado já conhecemos. Uma mulher bipolar foi morta na rua com uma multidão apoiando o assassinato, sem ter chance alguma de defesa por conta das fake news.

Embora casos de fake news que tenham resultado no assassinato de outros seres humanos não sejam tão frequentes, podemos pensar em outros exemplos que aconteceram recentemente e que poderiam ser completamente evitados se o uso da internet fosse mais consciente. Em 2018 foram relatados casos de macacos vítimas da febre amarela e do ser humano. Embora a mídia tenha dito que os casos de febre amarela em macacos eram um indicador de que aquela área estava contaminada e deveria ser monitorada, para melhor atendimento dos moradores da região, pessoas desinformadas, ou melhor, informadas por notícias falsas, conduziram o assassinato de qualquer macaco encontrado, seja uma espécie ameaçada de extinção, ou não.

O chocante sobre as fake news é que elas são mais repassadas online, ou seja, a informação verídica está disponível no site “ao lado” do site que compartilha as fake news, o que nos leva a pensar: Por que as fake news se espalham tão rápido, ou pelo menos, mais rápido que as notícias reais? E também, por que as pessoas preferem acreditar nelas do que nas notícias reais?

Em 2016 um estudo foi realizado utilizando a plataforma Twitter, uma das redes sociais mais utilizadas no mundo, cada mensagem enviada pode conter no máximo 280 palavras, e é considerado um grande disseminador de fake news. Este estudo procurou além de organizar as mensagens em verdadeiro e falso, entender qual é o apelo que as mensagens falsas possuem.

Eles perceberam que as notícias falsas traziam um senso de novidade, de medo, nojo e surpresa, enquanto as notícias reais traziam tristeza, alegria e confiança. Uma interpretação livre dessa pesquisa nos mostra que os usuários de redes sociais procuram se sentir entretidos, ao invés de informados.

O estudo também quantificou a quantidade de compartilhamentos das mensagens falsas e das verdadeiras. As mensagens que contém notícias falsas tendem a ser 70% mais compartilhadas do que as mensagens que contém notícias verdadeiras. 

Sendo assim, claramente as fake news possuem vantagem em nos induzir a compartilhar sem pensar ou pesquisar a respeito da notícia antes. É importante lembrarmos que a área em nosso cérebro que responde por sentimentos de medo inibe a área dos pensamentos racionais, da análise, por exemplo.

Este ano estamos passando por uma pandemia do covid-19, um vírus da família dos coronavírus, somos a primeira geração a testemunhar através das redes sociais como uma pandemia se alastra e como cada país lida com ela. Junto com as informações reais as redes sociais estão repletas de fake news, seja sobre conspiração, sobre ineficiência do álcool em gel, ou do isolamento, etc.

Nem todas as fake news possuem um caráter nocivo, enquanto as pessoas seguirem as orientações de segurança, pouco importa se ela acreditam que os Estados Unidos ou a própria China liberaram um vírus para sua população, em um grande esquema econômico, que busca a dominação mundial.

O problema das fake news consiste que quando começamos a acreditar em alguma teoria da conspiração, logo todas as outras informações recebidas podem fazer parte dessa teoria, e os indivíduos começam a duvidar de informações básicas e seguras como, lavar as mãos para evitar o contágio.

Outra situação mais nociva, é quando a população começa a temer seus próprios animais de estimação. Os veterinários já haviam se manifestado a respeito da alta chance do covid-19 não atingir os animais de estimação, devido eles já possuírem outros vírus da família coronavírus que os afeta, existindo inclusive vacinas para eles.

Mesmo assim, na China viralizou um vídeo de pessoas matando seu cão com medo de serem infectados por ele. Outras pessoas estão tomando vacinas destinadas ao “coronavírus canino” achando que obterão imunidade ao covid-19. Infelizmente não existe uma técnica grandiosa que vá te impedir de acreditar em fake news, mas com o tempo é possível perceber fórmulas e palavras chave que indicam que um texto pode ser uma fake news. 

detective-1424831_960_720.webp

 

O ideal é ao receber notícias por fontes não oficiais, checar no google as palavras chave que compõem a notícia. Por exemplo: “Macacos aprendem a escrever pela primeira vez”. Se essa notícia fosse real, todos os canais televisivos estariam falando sobre isso pois seria algo que mudaria toda nossa relação com macacos. 

Se a notícia continua dizendo que “a mídia não quer falar sobre isso pois há uma grande conspiração”, é importante entender que a notícia não tem validade nenhuma se não possui fontes, mesmo que as “fontes” estejam escondidas para não serem “caçadas” pelo governo.

Por isso, assim que receber uma notícia por aplicativos, é importante procurar fontes, sites de notícias ou pesquisas que corroboram com ela. Caso não exista você pode copiar parte da mensagem e procurar em ferramentas de pesquisa, como o google. Existem sites que se dedicam em desmentir fake news e provavelmente a sua estará lá.

Mas, existe a possibilidade de ser uma fake news muito recente e ela não estar nos sites ainda, porém se não existem meios oficiais confirmando essa notícia, é muito provável que seja falsa. Por isso é sempre importante estar atento e desperto. 

Você não está causando somente um mal a você ao acreditar e compartilhar fake news, você pode estar fazendo parte de uma corrente de pessoas que repassam essas notícias, gerando um comportamento de manada que pode ferir outros indivíduos.

Algumas redes sociais já demonstram ações contra as fake news, hoje é possível denunciar postagens do Facebook com a opção “notícia falsa”, o Youtube também evita colocar vídeos em alta, ou seja, com mais visualizações, quando o assunto está muito recente, para evitar a propagação de vídeos que contenham fake news.

As fake news são uma tendência que as redes sociais trouxeram para a internet e provavelmente irá permear os assuntos mais importantes, principalmente políticos, até possuirmos uma população que sabe pesquisar informações, sabe assumir a própria ignorância em assuntos mais técnicos e que acredita na índole dos cientistas da própria nação.

O trabalho de um dentista é cuidar dos dentes, o trabalho de um marceneiro é confeccionar móveis, o trabalho de um lojista é vender, o jornalista informa e o cientista pesquisa. É importante acreditar que cada profissão cumpre seu trabalho da melhor maneira possível. Então esse apelo é para que parem de duvidar dos cientistas de seu país, eles estão atuando da melhor maneira possível com o pouco que têm. Acredite no método científico, não em fake news.

Caso o leitor queira se informar mais a respeito dos temas tratados aqui:

 

A pesquisa citada no texto: 

https://www.nature.com/articles/d41586-018-02934-x.

Mais instruções de como proceder com fake news:

https://www.oficinadanet.com.br/redes-sociais/23994-como-reconhecer-uma-fake-news.

Outros links interessantes:

https://www.nature.com/articles/s41599-019-0224-y

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/03/17/novo-coronavirus-nao-e-transmitido-por-caes-e-gatos-diz-veterinario-em-bh.ghtml