O que é o efeito de borda? É de comer?

Por Joanna Laura- 15/12/2019

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   Ao andarmos de carro em uma viagem tediosa de horas de estrada podemos nos ocupar prestando atenção na paisagem que vemos. Muitas vezes ao pensarmos em conservação e biodiversidade só nos importamos se as áreas que nos cercam têm matas verdes e densas, e nestas viagens intermináveis de carro, esse pensamento já nos basta.

   Porém, o próprio fato de estarmos visualizando essa paisagem já é prejudicial de certo modo a ela. Como assim? O fato de estarmos de carro atravessando um ambiente já faz esse ambiente ser diferente das maravilhas ambientais que nossa mente cria.

    Vamos supor um ambiente verde, e que lá existe uma ave tão rara de ser observada que os pesquisadores precisam diariamente cruzar o mato fechado a facão, desviar de pedras, de cipós, praticamente encarnar o Indiana Jones só para ouvir o canto desta ave. Isso ocorre pois o nicho ecológico que essa ave vive é de mata fechada, longe dos sons da cidade, por exemplo.

   De certo modo a criação de uma estrada ali poderia pôr em risco a espécie dessa ave pois ela poderia não encontrar um local tão adequado quanto aquele para viver, poderia buscar outro ambiente e falhar em encontrar parceiros sexuais, por exemplo. De um jeito ou de outro, essa ave não realizaria seu ciclo de vida do mesmo modo que estava acostumada.

   Porém, isso que estou contando não é novidade na pesquisa, esse efeito se chama Efeito de borda e foi primeiramente comentada em 1907 por Clements, que usou o termo “ecótono”, ou seja, uma zona de transição entre dois ambientes. Já em 1933 Leopold já debatia os efeitos dessa zona e utilizou o termo “Efeito de borda”.

   Embora seja muito chocante acreditava-se que esse efeito era benéfico e era inclusive recomendado! Em 1970 quando observaram que algumas aves estavam perdendo seus ovos para predadores ao botar próximo à bordas, notaram que não era exatamente benéfico para a biodiversidade existente lá.

   Para definirmos o que é uma borda, temos que entender que existem habitats naturais e habitats nem tão naturais assim, na maioria das vezes causados pelo homem, seja por fogo, desmatamento, ou a nossa estrada. Chamamos essa interação entre habitats naturais, como a floresta fechada do nosso exemplo, e ambientes antropogênicos de borda. As bordas tendem a ser mais prejudiciais conforme o fragmento é menor, pois menos características do habitat original é mantido.

   Entender o efeito de borda e como ele é prejudicial para a biodiversidade que vivia naquele local antes da borda existir é importante para não considerarmos uma vitória a existência de fragmentos de floresta, por exemplo. É claro que eles têm sua importância, porém elevá-los ao nível de uma floresta virgem é ingenuidade de nossa parte.

    Uma pesquisa realizada em 2000 no estado do Paraná após o uso intenso da terra somente 8% da área original da floresta do Estado restava, sendo um problema para as aves da região que muitas não conseguiram se adequar a esse ambiente novo. As aves que restaram, ora viviam fora dos fragmentos, em ambientes abertos e voltavam ao fragmento irregularmente, e ora viviam no fragmento porém em densidades populacionais tão baixas, que parecia difícil aos pesquisadores de encontrá-las.

    Não só com aves e mamíferos podemos observar esse efeito, ele também ocorre em insetos e plantas. Embora muitas pessoas não gostem de insetos, é inegável a importância que eles têm para o nosso mundo. Se não tivéssemos abelhas a polinização da maioria dos cultiváveis do mundo não aconteceria, e provavelmente, morreríamos de fome depois que a comida enlatada acabasse.

   Embora nem todos os insetos sejam tão dramáticos como as abelhas, é importante entendermos que eles formam uma rede trófica com o restante dos seres vivos. Eles até podem ser usados como anti-pragas naturais, as famosas joaninhas por exemplo, comem pulgões, que são uma das maiores pragas agrícolas.

    E são os insetos, que são tão importantes que também correm riscos pelos efeitos de borda. Porém, diferentemente dos répteis, aves e mamíferos, é sabido que os insetos conseguem, devido a grande prole que geram e devido a facilidade em sofrer mutações em seu DNA, se acostumarem a ambientes antropofizados.

    Como é o caso de outra pesquisa, desta vez realizada em 2012, que categorizou e analisou a biodiversidade dos insetos que viviam próximos às bordas, que por acaso, eram estradas, assim como em nosso exemplo, e os insetos que viviam no centro do fragmento.

    Porém, nesta pesquisa não houve a percepção do efeito de borda nos insetos que ali existiam, porém ao que indica, essa facilidade não ocorre em insetos polinizadores, justo os insetos que causam maiores bem diretos a nós, seres humanos.

    Porém, nesta pesquisa não houve a percepção do efeito de borda nos insetos que ali existiam, porém ao que indica, essa facilidade não ocorre em insetos polinizadores, justo os insetos que causam maiores bem diretos a nós, seres humanos.

   Em plantas a fragmentação de florestas é uma das maiores causas para degradação desses biomas. Algumas espécies de plantas não suportam muita luz e uma ação humana que corte uma floresta ao meio expõem essas plantas a uma quantidade de luz que ela não está adaptada, causando sua morte.

    Uma pesquisa feita em 2006 analisando a Floresta Atlântica, um dos biomas mais ameaçados, sendo considerado um “hotspot”, ou seja, uma área que corre risco de degradação e que possui tantas diversidade de espécies dependentes dessa área, que sua extinção, causaria a extinção de várias espécies.

Sendo justamente essa floresta uma das mais afetadas pelo efeito de borda. Esse processo de degradação começou no século XVI. E hoje possui algumas áreas de florestas em um mosaico de áreas degradadas ou em processo de degradação. Levando a extinções imediatas de animais que dependem diretamente dessas áreas e causando danos a longo prazo, como mudança na polinização, predação e herbivoria, por exemplo.

   Quando pensamos em mamíferos que geralmente precisam de áreas de mata fechada vasta, por possuírem hábitos solitários, ao estarem em fragmentos pequenos, o simples estresse de avistarem outro de sua espécie, pode levá-los a não querer mais se reproduzir naquele local, por não acharem seguro, levando a extinção dessa espécie neste fragmento.

   Quando pensamos em mamíferos que geralmente precisam de áreas de mata fechada vasta, por possuírem hábitos solitários, ao estarem em fragmentos pequenos, o simples estresse de avistarem outro de sua espécie, pode levá-los a não querer mais se reproduzir naquele local, por não acharem seguro, levando a extinção dessa espécie neste fragmento.

   Se esse conceito ainda lhe parece muito abstrato, procure imaginar que na estrada que você está, existisse uma continuação da floresta fechada, os animais poderiam circular mais livremente pois não iriam evitar a estrada, as espécies de plantas existiriam de forma mais uniforme e não acumuladas no interior do fragmento, e os animais que dependessem dos frutos dessas plantas, como as aves poderiam circular livremente entre elas.

   Uma estrada não é só uma estrada, é uma barreira para toda uma biodiversidade que existia ali antes dessa estrada ser criada, que leva a danos imediatos e a longo prazo.