Design Inteligente (D.I): um conceito vazio e estéril - parte II: argumentos do D.I

Por André L. Tirollo dos Santos - 18/08/2019

   Para os defensores da hipótese pseudocientífica, o fato de a vida ser compatível com as condições físicas existentes em nosso Universo é uma forte evidência de que todas as coisas foram criadas por uma causa inteligente, de maneira planejada. Ora, mas seria possível um cenário diferente, em que a vida não fosse compatível com as leis da física? Se existisse tal incompatibilidade, logo não haveria vida. Mas, se as leis da física não fossem as que temos hoje, muito possivelmente teríamos algum tipo de vida a elas “adequada”. Logo, o fato de a vida ser possível nas condições em que se encontra não é uma forte evidência para nada além de que a vida existe da forma em que a conhecemos.

   Outro argumento defendido pelos "neocriacionistas" é o de que a probabilidade de o Universo (e todos os elementos que o constituem) terem surgido “ao acaso”, por processos “naturais”, é baixíssima, uma vez que o Cosmos é algo muito complexo. Para eles, a única explicação plausível seria a de que um criador fez todas as coisas que existem, através de processos “sobrenaturais”. Nas palavras do autor defensor da hipótese do Design Inteligente, William Dembski, as probabilidades de a vida ter surgido a partir de combinações e recombinações de elementos químicos são equivalentes a de um tornado passar por um ferro-velho e montar um Boeing 747. A pergunta que não quer calar é: como ele chegou nesse resultado? Infelizmente, a metodologia utilizada e os cálculos realizados não foram disponibilizados para o público. Além disso, a todo momento ocorrem eventos de baixa probabilidade: pessoas nascem sendo como elas são, cada qual do seu jeito, pessoas ganham rifas, jogos de loteria, se conhecem, se casam, etc... - atualmente, existem 7 bilhões de pessoas, então em um espaço amostral tão grande, qual a probabilidade de você ter conhecido justamente seu namorado/sua namorada ou seu melhor amigo/sua melhor amiga? Aliás, qual a probabilidade de você ter nascido a partir do encontro de seus pais, que por sua vez dependeu do encontro de seus avós, que por sua vez dependeu do encontro de seus bisavós, que por sua vez [...]? Outra coisa a ser pontuada é que o argumento da improbabilidade apenas transfere o problema de um lugar para outro. Afinal, qual a probabilidade de uma entidade cósmica existir e ter criado a vida como a conhecemos (se é que é possível medir isso)? Será que seria tão maior do que a de a vida ter surgido a partir de reações químicas que se deram de maneira randômica?

   Por fim, vamos ao famoso (e já desgastado) argumento - ou melhor dizendo, dogma - da “Complexidade Irredutível”, proposto por Michael Behe em seu livro “A Caixa-Preta de Darwin”, de 1996. Mas o que seria essa tal de “Complexidade Irredutível”? Nas palavras do próprio autor (afinal, ninguém melhor que ele para explicar o que passou em sua cabeça na hora em que estava elaborando o argumento): “por irredutivelmente complexo eu quero dizer que um sistema único é composto de diversas partes bem encaixadas, interativas e que contribuem com a função básica, de forma que a remoção de cada uma destas partes causa o sistema a efetivamente parar de funcionar." Para ilustrar isso, Behe citou como exemplo o flagelo bacteriano, alegando que as partes que compõem essa estrutura celular seriam dependentes umas das outras, de modo que a ausência de uma delas implicaria necessariamente na inutilidade do conjunto como um todo. Para os defensores do Design Inteligente, tal complexidade irredutível é* uma forte evidência da existência de uma mente idealizadora de todas as coisas vivas, afinal tudo parece ter sido meticulosamente calculado para viabilizar o funcionamento dos organismos da maneira mais eficiente possível, da mesma forma que a introdução de cada peça na fabricação de uma máquina é muito bem pensada, visando garantir sua funcionalidade sem adicionar mais recursos que o necessário. Esse “fato” poderia até ser interpretado como uma evidência, se fosse verdade.

   O flagelo bacteriano (exemplo queridinho de Behe) mais estudado até o momento é o da bactéria E. coli. Ele é composto por cerca de 40 tipos diferentes de proteínas. Contudo, apenas 23 dessas proteínas são comuns a todos os outros flagelos bacterianos estudados até o momento. Diante desses fatos, é possível fazer duas inferências: ou um designer criou milhares de variantes no flagelo, demonstrando não ser tão inteligente assim, ou, ao contrário do argumento amplamente utilizado pelos “neocriacionistas”, é possível fazer mudanças consideráveis ​​no maquinário sem estragar tudo. Além disso, também foi demonstrado que alguns dos componentes que compõem um flagelo bacteriano típico podem desempenhar outras funções na célula, além da exercida durante o funcionamento do flagelo, de maneira independente.

    O D.I, ao contrário do que alegam seus defensores, não é uma teoria, não possuindo qualquer tipo de embasamento científico. Seus argumentos principais são fracos, vazios, e alguns - como o da complexidade irredutível do flagelo bacteriano - já foram comprovados como falsos.

Observações:
* - seria

 Não leu a parte I? Confira aqui: O que é D.I? É ciência?

Bibliografia consultada:
DEMBSKI, William A. Specification: the pattern that signifies intelligence. Philosophia Christi, v. 7, n. 2, p. 299-343, 2005.

BEHE, Michael J. Darwin's black box: The biochemical challenge to evolution. Simon and Schuster, 1996.

MILLER, Kenneth Raymond. Only a theory: Evolution and the battle for America's soul. Penguin, 2008.

PASTERNAK, Natalia. Reduzindo e simplificando a complexidade irredutível. Questão de Ciência. Disponível em: <http://revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/02/13/reduzindo-e-simplificando-complexidade-irredutivel>. Acesso em: ago. 2019

LE PAGE, Michael. Evolution myths: The bacterial flagellum is irreducibly complex. New Science. Disponível em: <https://www.newscientist.com/article/dn13663-evolution-myths-the-bacterial-flagellum-is-irreducibly-complex/#ixzz5wvTBbLV6. Acesso em: ago. 2019