Design Inteligente (D.I): um conceito vazio e estéril - parte I: o que é D.I? É ciência?

Por André L. Tirollo dos Santos - 29/06/2019

   Design Inteligente (D.I) é uma hipótese pseudocientífica que propõe que todas as formas de vida existentes foram projetadas por uma causa inteligente (entidade pensante / dotada de consciência). A ideia em si é muito antiga (mais antiga do que a ciência moderna), porém a tentativa de impô-la como uma teoria científica e o uso do termo que a denomina são recentes na história da humanidade, remetendo-nos ao final da década de 1980, quando foi publicado o livro de cunho pseudocientífico Of Pandas and People, o qual é voltado para estudantes de Ensino Médio e escrito pelos autores criacionistas norte-americanos Percival Davis e Dean H. Kenyon.

   Na definição do Discovery Institute, uma organização norte-americana que advoga em defesa da hipótese do Design Inteligente e propõe que o conceito seja ensinado nas escolas como uma teoria científica, o D.I pode ser definido como um “programa de pesquisa científica, bem como uma comunidade de cientistas, filósofos e outros estudiosos que buscam evidências de design na natureza.” Ainda de acordo com a organização, “a teoria (sic¹) do Design Inteligente sustenta que certas características do Universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não direcionado, como a seleção natural.”

   Se os autores que defendem o D.I. estão realmente envolvidos em um programa de pesquisa científica, seguindo a metodologia adequada para tal, então certamente encontraremos artigos sobre o assunto revisados por pares credíveis e publicados em uma revista científica de renome. Pois bem, no site oficial do Discovery Institute há uma seção intitulada “PEER-REVIEWED & PEER-EDITED ARTICLES SUPPORTING INTELLIGENT DESIGN”, que pode ser traduzido para o Português como “publicações científicas que foram revisadas por pares e que sustentam o Design Inteligente”. E o que encontramos de relevante para a Ciência nessa lista? Infelizmente, a resposta é: NADA.

   Mas como assim nada? Simples! O que há nessa lista são artigos publicados em periódicos criacionistas, alguns até mesmo financiados pelo próprio Discovery Institute, como é o caso do BIO Complexity Journal, artigos publicados por autores criacionistas em revistas que até possuem certa credibilidade, mas que não chegam a nenhuma conclusão definitiva, não provam nenhum ponto da hipótese do D.I ou sequer falam diretamente sobre o assunto, e artigos publicados em revistas de Filosofia. Neste último caso, é importante dizer que apesar de a Filosofia desempenhar um papel importantíssimo em todas as sociedades existentes, promovendo o pensamento crítico e auxiliando na construção de novos saberes, inclusive fiscalizando e aprimorando o método científico (um dos focos da Filosofia da Ciência), esta não é uma ciência propriamente dita e nem possui a intenção de ser assim classificada. Além disso, caso alguém conseguisse “refutar” a Teoria da Evolução das Espécies, faria muito mais sentido que sua descoberta fosse publicada em um revista de Biologia Evolutiva.

   “Ah, mas isso ocorre porque a maior parte dos cientistas são ateus e não querem admitir que existe um criador. Logo, trabalhos que dão suporte à hipótese do Design Inteligente são sabotados pela comunidade acadêmica”. Calma, meu caro leitor conspiracionista. Muita calma! De acordo com um estudo realizado e publicado em 2009 pelo instituto de pesquisas demográficas Pew Research Center, 51% dos cientistas norte-americanos entrevistados declararam acreditar em Deus ou alguma outra “força maior”. Ou seja, mais da metade da comunidade acadêmica dos E.U.A possui alguma crença religiosa, seja ela em maior ou menor grau. Dessa forma, o exemplo de suposição dado no início do parágrafo não faz o menor sentido. Afinal, é pouco provável que a maioria da comunidade acadêmica se auto sabote para agradar à minoria, ainda mais em um contexto em que não é rara a disputa de egos.

   A Nature, revista mais prestigiada no meio acadêmico, e na qual nunca fora veiculado qualquer artigo que promovesse a hipótese do Design Inteligente, publicou um texto editorial em sua edição de nº 495 dizendo o seguinte: “ciência e fé podem oferecer visões de mundo complementares, com o progresso científico moldando e frequentemente desafiando as bases da doutrina da Igreja e vice-versa: a fé pode, muitas vezes, acrescentar uma muito necessária dimensão ética e de justiça social aos avanços da ciência e seu impacto na sociedade. Confrontos entre pessoas de crenças diferentes são inevitáveis, mas ciência e religião ganharão mais se construírem pontes sobre o que as separa”. Desta forma, fica mais do que claro que a intenção do periódico não é desmoralizar as religiões ou acabar com a fé alheia. Longe disso. A revista apenas promove a ciência da maneira como deve promovê-la: com honestidade intelectual.

  Voltemos à explicação dada pelo Discovery Institute acerca da hipótese do Design Inteligente. No seguinte trecho, há um erro conceitual: “[...] certas características do Universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não direcionado, como a seleção natural.” Ao contrário do que muitos acreditam, a seleção natural não ocorre de maneira aleatória. A seleção natural apenas seleciona e direciona algumas das variações dentre todas as variações existentes (e possíveis) na população, promovendo como resultado a Evolução.

   Variantes genéticas que favorecem a sobrevivência e a reprodução em um determinado ambiente tendem a prosperar nele, enquanto as variantes genéticas que não favorecem a sobrevivência e a reprodução tendem a ser extintas. Para tornar a explicação mais concreta, proponho a seguinte reflexão: em qual ambiente é mais provável que um peixe nasça, desenvolva-se e se reproduza? Em um aquário com água na temperatura ideal, oxigênio e todos os nutrientes necessários disponíveis, ou na areia do deserto do Saara? Não parece plausível que surja um peixe no segundo ambiente, correto? Logo, há um direcionamento no fenômeno da seleção natural.

Observações:
1 - O termo sic é utilizado quando a fala de alguém (ou alguma instituição) está sendo reproduzida da maneira exata, por mais errada ou estranha que possa parecer.

2 - A parte II do texto já está disponível para leitura. Confira aqui: <https://www.poeiraestelar.net/designinteligenteargumentos>

Bibliografia consultada: 

BOUDRY, Maarten; BLANCKE, Stefaan; BRAECKMAN, Johan. Irreducible incoherence and intelligent design: A look into the conceptual toolbox of a pseudoscience. The Quarterly review of biology, v. 85, n. 4, p. 473-482, 2010.

PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on stilts: How to tell science from bunk. University of Chicago Press, 2010.

DISCOVERY INSTITUTE. Center for Science & Culture. Frequently Asked Questions. Disponível em: <https://www.discovery.org/id/faqs/#questionsAboutIntelligentDesign> Acesso em: jan. 2019.

DISCOVERY INSTITUTE. Center for Science & Culture. Peer-Reviewed Articles Supporting Intelligent Design. Disponível em: <https://www.discovery.org/id/peer-review/>. Acesso em: jan. 2019.

PEW RESEARCH CENTER. Religion & Public Life. Scientists and Belief. Disponível em: <https://www.pewforum.org/2009/11/05/scientists-and-belief/>. Acesso em: jan. 2019.

NATURE PUBLISHING GROUP. EDITORIAL. A pope for today. Nature, [s.l.], v. 495, n. 7441, p.282-282, mar. 2013. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1038/495282a.