Comunicação que transcende espaço e tempo

Por Camila de Abreu Silva - 17/09/2020

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  Um dos principais atributos que diferencia o Homo sapiens do restante dos animais é a sua complexa capacidade de comunicação, mas é claro que outros animais também são capazes de transmitir informações a membros de sua espécie ou até mesmo para espécies distintas, podendo expressar companheirismo, atração sexual, dominância, alerta de perigo e defesa territorial. Isso pode ocorrer por meio de sinais químicos, elétricos, visuais, auditivos, pelo toque e por expressões faciais. Contudo, somente nossos representantes foram capazes de desenvolver a linguagem verbal, com sua infinidade de formas entre os diferentes dialetos e técnicas adotadas. Na enciclopédia Ethnologue, que é constantemente revisada e atualizada, consta a existência de 6.912 idiomas ao redor do mundo e estima-se que entre 300 e 400 línguas ainda não foram catalogadas em áreas da Ásia e do Pacífico. E lembrando que não somente de língua falada se vive o homem: a percepção sensorial é bem explorada para a comunicação, na qual deficientes auditivos contam com as linguagens de sinais e deficientes visuais dependem do braille. 

  Mas como animais são capazes de executar uma tarefa tão árdua? O telencéfalo humano (nome sofisticado para o cérebro) é dividido em dois hemisférios - esquerdo e direito. Toda essa região é recoberta pelo córtex - substância cinzenta que contém sulcos, lobos e giros, que aumentam a área da superfície de contato e, consequentemente, a complexidade do órgão. Os locais específicos relacionados à emoção, percepção, pensamento, linguagem, memória e ações planejadas pertencem ao neocórtex, pois referem-se a áreas com formação mais recente no processo evolutivo, não encontradas em encéfalos primitivos. 

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Tradução da imagem:

  • Primary sensory cortex: córtex sensorial primário (lobo parietal); 

  • Somatic sensory association area: área de associação sensorial somática (lobo parietal);

  • Primary motor cortex: córtex motor primário (lobo pré-frontal);

  • Somatic motor association area: área de associação motora somática (lobo pré-frontal);

  • Prefrontal cortex: córtex pré-frontal;

  • Broca's area (production of speech): área da broca, produção da fala;

  • Auditory association area: área de associação auditiva (lobo temporal);

  • Auditory cortex: Cortex auditivo = lobo temporal;

  • Wernicke's area (understand speech): área de Wernicke (compreensão da fala);

  • Visual cortex: córtex visual = lobo occipital;

  • Visual association area: área de associação visual (lobo occipital).

  Dessa forma, a linguagem irá depender inteiramente do neocórtex, em especial, do hemisfério esquerdo do telencéfalo. No lobo pré-frontal e na região traseira do lobo temporal, respectivamente, estão localizadas a área de Broca e a área de Wernicke, imprescindíveis para a produção e entendimento da fala.

  A área de Broca foi descoberta em 1861, pelo cirurgião francês Paul Broca. Nessa região há neurônios especializados em produzir a fala. Danos na área de Broca provocam a afasia expressiva, que ocorre quando o indivíduo é capaz de compreender a semântica de tudo aquilo que escuta, porém não consegue reproduzir a fala, mesmo entendendo-a perfeitamente. A área de Broca está sempre em contato com os neurônios da área de Wernicke. O neurologista alemão Carl Wernicke foi o responsável por descobrir essa área em 1874. Ela exerce a função de entender o significado dos sons produzidos pela linguagem. Danos na área de Wernicke comprometem o entendimento da comunicação em um indivíduo: por mais que este seja apto para falar fluentemente, não é capaz de atribuir significado para aquilo que fala ou escuta. Este comprometimento na linguagem é chamado de afasia receptiva. Áreas análogas à área de Broca e área de Wernicke são encontradas no hemisfério direito e são responsáveis, respectivamente, por produzir e entender a prosódia da linguagem - prosódia refere-se à entonação e ao ritmo da fala, elementos imprescindíveis para compreender a língua que está sendo dita.

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  A linguagem evoluiu somente uma única vez no Reino Animal. Estudos nas áreas de Neurociência e Psicologia Comparativa encontraram áreas do telencéfalo de primatas não-humanos similares às envolvidas no processo de linguagem humano, embora essas sejam mais simples. Em macacos, a estimulação da área homóloga à área de Broca provoca movimentos faciais de oratória, vocalizações e, raramente, algumas gesticulações. Isso implica que a tendência de aprender a linguagem é hereditária - é uma capacidade biológica que evoluiu somente em nós, seres humanos, e é supervisionada geneticamente. 

A linguagem é realmente um atributo humano impressionante. Ouvir o que animais têm a dizer sobre seus sentimentos, vivências, aprendizado, ações passadas, planejamentos futuros e lugares visitados, é algo experimentado somente por nós - e pela primeira vez na evolução darwiniana, fruto de um aumento na massa encefálica. A complexidade dessa ação ultrapassa não somente espaço e tempo, mas barreiras nunca vivenciadas por outros animais: não é à toa que somos os primeiros representantes racionais de seres vivos, não é mesmo?

Referências bibliográficas