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Uma Breve História do Pensamento Evolutivo

Por André L. Tirollo dos Santos -  22/12/2018

       A busca por explicações acerca das diferenças existentes entre as diversas formas de vida presentes na biosfera e a relação que possuem com os meios nos quais estão distribuídas tem raízes na antiguidade e vem passando por modificações à medida que a ciência avança.

      Platão, um pensador grego pré-socrático, buscou distanciar-se do pensamento mitológico, o qual era predominante na época, e dedicou-se a refletir acerca da natureza sob perspectivas racionais, passando a viver em uma incessante busca pelo que ele chamava de episteme, ou seja, conhecimento verdadeiro e unificado, irrefutável e de caráter objetivo, em oposição à opinião infundada ou irrefletida, que era de caráter subjetivo. Formulou então a hipótese de que a realidade (essência das coisas) era de natureza imutável e encontrava-se no mundo das ideias, enquanto as coisas captáveis pelos sentidos eram meras representações imperfeitas das que estavam presentes no mundo hipotético por ele imaginado, justificando as diferenças entre os componentes do plano existencial em que vivemos (animais, plantas, minerais, rochas, etc…) com base nesse raciocínio.

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      Anos passaram-se e Aristóteles, um de seus discípulos, rompeu com a hipótese de que a realidade encontrava-se em outro plano e dedicou-se a estudar a realidade física na qual ele estava inserido, ou seja, os fenômenos físicos, químicos e biológicos presentes em seu plano existencial, e fundou sua própria escola, o Liceu. Dessa forma, foi o primeiro pensador classificar os seres vivos de maneira abrangente e sistemática, intitulando seu modelo de Scala Naturae (escala natural). Essa classificação aristotélica incluía não apenas organismos vivos, mas também outros elementos da natureza, como minerais e rochas, e era de caráter hierárquico, colocando na base da escala os seres vivos e coisas que, para o filósofo, eram mais simples, e no topo os seres humanos, considerados por ele como os mais complexos componentes da natureza. Na concepção do filósofo, a escala natural teorizada por ele era imutável, estando de acordo com a hipotética ordem que regia o Cosmos, o que garantia estabilidade a tudo o que existia.

      Durante a alta idade média, os conhecimentos da Grécia clássica perderam-se no ocidente. No entanto, o contato com o mundo islâmico (onde muitos manuscritos gregos foram preservados e elaborados) rapidamente levou a um grande volume de traduções no século XII. Os europeus foram então apresentados aos trabalhos de Platão e Aristóteles, assim como ao pensamento islâmico. Pensadores católicos escolásticos, em particular Abelardo e Tomás de Aquino, combinaram o sistema de classificação aristotélico com as ideias de Platão para justificar os pilares da fé cristã com base na racionalidade e assim sustentar de maneira mais convincente as afirmações contidas na Bíblia. O resultado disso foi o surgimento da visão de que todas as formas de vida em potencial estavam presentes numa criação perfeita, e portanto imutável, cada qual com sua função e organizada de maneira hierárquica. Esta hierarquia se estendeu à sociedade como um todo e defender a existência de mudanças na ordem instituída pelo deus cristão era considerado um afronte à entidade, o que configurava um crime gravíssimo cuja punição era a morte dos envolvidos.

      O papel das ciências naturais passou a ser o de atestar a perfeição da grande obra de Deus, revelando toda sua grandiosidade à humanidade. A obra de Lineu (Systema Naturae, 1735, e Species Plantarum, 1753), ainda hoje profundamente influente sobre a classificação biológica, foi concebida “ad majorem Dei gloriam”.

      Os conceitos imutáveis começaram a ser questionados com o surgimento e desenvolvimento das ciências empíricas. Newton, Descartes e outros pensadores desenvolveram teorias mecanicistas (visão de que o Universo funciona da mesma maneira que uma máquina) para os fenômenos físicos. No final do século XVIII, o conceito de um mundo mutável foi introduzido por Kant e por Laplace, sendo cada vez mais aceito à medida que avançavam os estudos de Astronomia, conforme noções de evolução estelar foram sendo criadas, e de Geologia, com evidências cada vez mais presentes de que mudanças na crosta terrestre ocorrem. Quanto a questões humanas, o Iluminismo introduziu ideias de progresso e aperfeiçoamento da sociedade por meio da razão e da ciência.

    A Revolução Francesa e a Revolução Industrial Inglesa foram responsáveis por grandes mudanças sociais ao estabelecerem que a sociedade poderia sofrer alterações, e portanto, que os reis não eram determinados pelos deuses. Além disso, ficou evidente a luta entre classes dominantes e classes menos favorecidas. Nesse contexto, houve uma intensa ruptura com os valores anteriormente predominantes na civilização ocidental, intensamente influenciada pela cultura cristã. Diversas foram as mudanças na estrutura social, ficando evidente que até mesmo as instituições mais estáveis como a monarquia poderiam sofrer mudanças. Tudo era fluido e mutável, caindo por terra a concepção de que a obra do criador era perfeita e inabalável.

      A Bíblia e suas “respostas”, anteriormente tratadas como verdades absolutas e de caráter inquestionável, passaram a ser colocadas à prova por pesquisadores do mundo todo. Um exemplo disso foram as análises de rochas sedimentares realizadas por geólogos da época, cujos resultados revelaram que a Terra era muito mais velha do que fora afirmado pelos estudos bíblicos. Georges Buffon sugeriu que a terra poderia ter até 168.000 anos, em contraste com os 6.000 anos propostos por cientistas medievais.​

    No final do século XVIII, Maupertuis, Diderot e Goethe, além de muitos outros pensadores, começaram a refletir acerca da origem da vida e especular como se deu o desenvolvimento desse fenômeno no planeta Terra. Propuseram que novas formas de vida poderiam se originar ou por geração espontânea ou pelo desdobramento das potencialidades imanentes das espécies já existentes, porém não aventuraram-se a investigar se esses fenômenos realmente ocorriam e, caso a resposta fosse positiva, como ocorriam.

      Lamarck foi o primeiro evolucionista que buscou explicar o mecanismo pelo qual ocorria a evolução das espécies. Para ele, as formas de vida inferiores surgiam continuamente a partir da matéria inanimada através de geração espontânea, progredindo em direção a uma maior complexidade e perfeição através de uma força vital inata. Lamarck reconheceu que as espécies eram adaptadas a seus respectivos ambientes, alegando que isso ocorria porque a mesma força inata que levava a uma maior complexidade fazia com que os órgãos dos seres vivos mudassem conforme o uso e o desuso desses órgãos (assim como músculos são afetados pelo exercício). Para ele, essas mudanças seriam herdadas pela próxima geração e, conforme a necessidade, novas alterações surgiriam, sendo também passadas para as gerações subsequentes, possibilitando a sobrevivência e a perpetuação da espécie no planeta. Foi esse mecanismo de adaptação por herança de caracteres adquiridos que ficou conhecido como “lamarquismo” e influenciou discussões sobre evolução até o século XX.  Essas discussões chegaram aos ouvidos dos naturalistas britânicos Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace, despertando a curiosidade deles acerca do tema, o que os levou a investigar profundamente o tema e propor a Teoria da Evolução em meados do século XIX.

      A Teoria da Evolução é fruto de pesquisas, ainda em desenvolvimento, iniciadas pelo legado deixado pelo cientista inglês Charles Robert Darwin e pelo naturalista britânico Alfred Russel Wallace. De 1831 a 1836, Darwin fez parte de uma expedição de levantamento topográfico feita pelo navio HMS Beagle, a qual incluía paradas na América do sul, Austrália e a ponta sul da África. Em cada uma das paradas da expedição, Darwin teve a oportunidade de estudar e catalogar as plantas e os animais locais.

     Darwin descobriu que espécies similares de tentilhões, mas não idênticas, habitavam ilhas próximas a Galápagos. Além disso, ele percebeu que cada espécie de tentilhão estava bem adaptada para seu ambiente e sua função. Por exemplo, espécies que comiam sementes grandes e tendiam a ter bico largo e duro, enquanto aquelas que comiam insetos tinham bico fino e afiado. Finalmente, ele observou que os tentilhões (e outros animais) encontrados nas Ilhas Galápagos eram similares às espécies do vizinho continente do Equador, mas diferentes dos encontrados no resto do mundo.

      Após refletir sobre o assunto, chegou à conclusão de que o padrão faria sentido se as Ilhas Galápagos tivessem sido habitadas, muito tempo antes, por aves das terras continentais vizinhas. Em cada ilha, os tentilhões devem ter se adaptado gradualmente às condições locais (por muitas gerações e longos períodos de tempo). Esse processo pode ter levado a formação de uma ou várias espécies em cada ilha. Os questionamentos a serem feitos logo após foram os seguintes:  Que mecanismos poderiam explicar como cada população adquiriu adaptações, ou características que as tornaram bem adaptadas àquele ambiente, naquele determinado momento? Então, durante sua viagem e nos anos posteriores, Darwin desenvolveu e aperfeiçoou um conjunto de ideias que poderiam explicar os padrões que ele observou, conhecidas em conjunto como Teoria da Evolução das Espécies, descrevendo-as detalhadamente em seu livro “A Origem das Espécies”, lançado no ano 1859 d.C.

      Resumidamente, a Teoria da Evolução das Espécies proposta pelo naturalista britânico postula que:

   a) Uma população de uma determinada espécie inclui indivíduos com características variadas (são qualitativamente diferentes uns dos outros);
   b) A evolução de uma espécie é resultado de diferentes taxas de sobrevivência e de reprodução dos vários tipos de indivíduos (as frequências relativas dos tipos mudam com o tempo);

    c) A população da geração seguinte terá um número maior dos tipos de indivíduos mais bem-sucedidos em sobreviver e se reproduzir sob as condições ambientais existentes (Seleção Natural);

      Estes tópicos podem ser resumidos em três princípios propostos por Darwin:
 

    * Princípio da variação: entre os indivíduos de uma determinada população, há diferenças em relação à morfologia, à fisiologia e ao comportamento destes;
   * Princípio da seleção: alguns tipos de indivíduos obtêm mais sucesso em sobreviver e se reproduzir nas condições ambientais às quais estão submetidos (Seleção Natural);
    * Princípio da hereditariedade: muitas características são passadas dos pais para os filhos. Darwin, porém, não sabia o motivo pelo qual isso ocorria.


 

      Nas décadas de 1930 e 1940, os conhecimentos de Genética foram incorporados às ideias evolucionistas de Darwin, resultando no surgimento de uma teoria mais abrangente e mais embasada e, por isso, mais aceita para explicar as leis que regem o processo evolutivo de seres vivos. Essa teoria fornece explicações de como as características são passadas dos pais para sua prole e como surge variabilidade entre os indivíduos de uma população, coisas que Darwin não conseguiu explicar na época. Essa "nova versão" da Teoria da Evolução ficou conhecida como Teoria Moderna da Evolução, ou Teoria Sintética da Evolução, ou ainda Neodarwinismo.

Bibliografia consultada:

 

RIDLEY, Mark. Evolução. Artmed Editora, 2009.

JOHNSTON, Ian. And Still We Evolve: A Handbook on the History of Modern Science. British Columbia: Malapina University, 2000.

AVISSAR, Y; CHOI, J; DESAIX, J. Biology. Houston, TX: OpenStax.

KHAN ACADEMY. Darwin, evolução e seleção natural. Disponível em: <https://pt.khanacademy.org/science/biology/her/evolution-and-natural-selection/a/darwin-evolution-natural-selection>. Acesso em: 04/12/2018.

GARCIA, Antônio A. F. Aula 11: Evolução. Disponível em: <http://docentes.esalq.usp.br/aafgarci/pub/genet11.pdf>. Acesso em: 04/12/2018