A vida fora do ninho não é fácil. E você pode ser parte do problema!

Por Edeilton Santos Silva - 30/11/2019

   Com a chegada da primavera, temos uma explosão de vida ao nosso redor. Flores desabrocham, insetos atraídos pelo pólen e néctar também se juntam a festa. Tudo parece perfeito, talvez um pouco irritante para quem sofre com problemas respiratórios como a rinite, mas nem tudo sobre a primavera são flores, não é mesmo? Esta é também uma época ideal para reprodução de diversos grupos animais, e entre eles se encontram grande parte das aves brasileiras.

   Atualmente, há aproximadamente 10.426 espécies de aves documentadas mundialmente, e no Brasil, com uma das maiores diversidades desses animais em todo o mundo, são encontradas por volta de 1.919 espécies. Não é surpresa alguma que a época de reprodução de grande parte desse grupo esteja alinhada com o fim do inverno e chegada da primavera, mas com o avanço humano e processos como a urbanização, os ciclos naturais envolvendo esses animais se encontram cada vez mais ameaçados.

   Já andou por aí, ouviu um piado baixinho e ao procurar a fonte se deparou com um filhote de passarinho? É uma situação muito comum! É muito possível que você ou alguém que você conheça já tenha se encontrado nessa situação e e tenha decidido levar o filhote para casa, talvez numa caixa de papelão ou madeira, com palha ou um paninho que simularia um ninho para manter o pequeno filhote aquecido, na esperança que o mesmo sobrevivesse. E ele morreu.

   É isso mesmo que você leu. Sabe aquele pequeno passarinho que você não conseguiu salvar? As chances dele seriam maiores se você o tivesse deixado onde estava. Mas calma, entendemos que as intenções foram as melhores possíveis. Quem não acaba ficando um pouco mexido quando o assunto são filhotes? A questão é que boas intenções aliadas com falta de informação, ausência de formação ou experiência no manuseio e cuidado desses animais acarretam consequências desastrosas, não só para o pequeno filhote que não sobreviveu. 

   Parte do problema está em acreditarmos que os filhotes, geralmente com o corpo ainda parcialmente coberto por penas e sem conseguir voar, tenham caído do ninho por acidente. O que, apesar de possível, não é o que acontece realmente. 

   “Eles saem do ninho assim mesmo, logo que o corpo se recobre de penas, ainda sem conseguir voar perfeitamente.” – Comenta o Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais, Augusto Florisvaldo Batisteli em texto compartilhado em suas redes sociais. Batisteli, que tem experiência na área, demonstra preocupação com a prática, que acaba sendo divulgada em grupos no Facebook e outras redes sociais, principalmente por pessoas buscando ajuda e informações sobre como criar filhotes de pássaros “perdidos”.

   “Ao encontrarem um desses, por favor, por favor mesmo, não levem pra casa (a menos que ele esteja pelado e de olhos fechados)! Além de tudo, é crime ambiental. ” – Enfatiza o doutorando.

   É importante que tenhamos em mente que levar um filhote de animal silvestre para casa, sem autorização necessária e documentação do mesmo, configura crime ambiental, conforme declarado na lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998!

   “Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: 

Pena – detenção de seis meses a um ano, e multa. ”

   Um ponto importante é que, muito provavelmente esses filhotes não estão sozinhos ou abandonados, muito pelo contrário!

   “Os pais certamente estão de olho - embora você não os esteja vendo, já que esse projeto de angry bird é o bem mais precioso que eles têm. Não sequestre o filhote que lhes custou um mês de alto risco de vida e trabalho duro (14 dias praticamente sem sair do ninho chocando os ovos e mais de mil voos trazendo alimento ao ninho). ” – Esclarece Augusto em seu texto. 

   Além de ilegal, a prática põe em risco o balanço ecológico de toda uma comunidade ali presente. Nos preocupamos com a possibilidade de o filhote ser comido ou morto, nos esquecendo do fato de que é assim que as coisas são na natureza. Outros animais, inclusive outras aves, também precisam se alimentar e alimentar seus filhotes! Interferência direta nessas interações são muito mais danosas que positivas. 

   “Sim, pode. No entanto, os filhotes de outros animais, incluindo os daqueles tucanos, gaviões e corujas maravilhosos que tem por aí também precisam comer. Se você levar esse para casa, ele vai comer o próximo que encontrar, e quantos menos houverem, menos sobrarão. ” – Comenta Augusto sobre a possibilidade do filhote se tornar alimento para outros animais.

   Esperamos ter esclarecido alguns pontos sobre esse tópico importante. Caso encontre um desses pequeninos por aí, o admire, mas não os pegue a menos que estejam em situação de risco eminente, no meio da estrada, por exemplo. Nesses casos, mova o filhote para uma área próxima que julgue ser segura e siga seu caminho. Precisamos permitir que a natureza siga seu curso mesmo que não nos pareça a melhor opção.

   Agradecimento especial ao Augusto Florisvaldo Batisteli, Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais, Mestre em Ciências Ambientais e Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos, por dividir seu conhecimento conosco.

Referências Bibliográficas

Lei 9.605. <disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9605.htm. Acesso realizado em 13 de novembro de 2019>

Avibase - The World Bird Database. <disponível em https://avibase.bsc-eoc.org/avibase.jsp?lang=PT&pg=home - acesso realizado em 13 de novembro de 2019>

Augusto Florisvaldo Batisteli via Facebook. <Disponível em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2730608390358483&set=a.110

   Fonte das imagens utilizadas:

 https://pt.freeimages.com/premium/cute-13-days-old-blackbird-babies-synchronical-680334

 "vector birds" by marta mariano is licensed under CC BY-NC-ND 4.0 

 Photo by TJ Arnold on unsplash