Aquecimento Global: balela ou realidade?

Por Francisco Sassi e Marcus Duarte - 09 de julho de 2019.

     O aquecimento global é um processo natural que acontece em nosso planeta e é resultado principalmente de outro processo natural chamado Efeito Estufa. Este, por sua vez, acontece da seguinte maneira: o gás ozônio (composto por três moléculas de oxigênio) forma um escudo protetor ao redor do globo terrestre, refletindo grande parte dos raios solares e permitindo a passagem de pouca radiação. A fração que atinge o solo da terra (crosta terrestre) é, em parte, absorvida pelos oceanos e pelas superfícies terrestres. Uma outra pequena fração seria refletida de volta para o espaço, porém ficam retidas por outros gases que compõem o conjunto de “gases do efeito estufa” (GEF). Quando há essa retenção de radiação na atmosfera, o clima do planeta se torna muito mais quente, sendo essa característica fundamental para a existência de vida no planeta.

   Apesar de muitos tentarem negar, há anos a ciência nos demonstra que a Terra passa por períodos cíclicos de aumento e diminuição de temperatura. Como exemplo desses ciclos, temos as eras glaciais que ocorreram nesse planeta há aproximadamente 21 mil anos atrás e levaram a extinção de diversos animais, gerando diversos fósseis. Com os registros fósseis, podemos estudar e tentar entender melhor como funcionam esses períodos de extrema mudança térmica.

   De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), nos últimos 100 anos, o clima de nosso planeta esquentou. A cada ano que passa, é notável o aumento na temperatura, seja na sensação térmica ou nas diversas pesquisas que relatam os efeitos dessas mudanças sobre as alterações ambientais (por exemplo o aumento de furacões nos EUA).

  Entretanto, ainda existem grupos que negam o aquecimento global, o que nos leva a um grande problema enfrentado atualmente: o negacionismo científico, onde grandes grupos tendem a tentar derrubar a explicação do aquecimento global. O que falta-lhes entender é que este é um processo natural e gradual, e que está apenas sendo cada vez mais acelerado pelas ações e interferências antrópicas.

   Como demonstrado por Walther et al. (2002), o aumento da temperatura global traz consequências para animais e plantas, principalmente quando se trata do tempo de geração. Como exemplos disso, citamos os estudos publicados na Europa e na América do Norte desde os anos 1960, em que ficam evidentes as mudanças ecológicas advindas do aumento da temperatura do planeta. Entre as mudanças apresentadas nesses trabalhos, a chegada precoce de aves migratórias em certas regiões, o aparecimento antecipado das mariposas na primavera e até a antecipação da desova de alguns anfíbios são destacados. Além disso, a invasão de algumas espécies tem sido correlacionada com o aquecimento global, já que esta é responsável por mudanças na biota local, permitindo com que espécies próximas invadam áreas anteriormente dominadas por outras.

   Dentre esses impactos vale ressaltar que um dos ecossistemas mais afetados é o marinho, pois este fenômeno está diretamente ligado com a acidificação dos oceanos, que por sua vez afeta diversos seres vivos. Esta acidificação ocorre por conta do aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, que é uma das prováveis causas do aquecimento global. Este gás, ao entrar em contato com os oceanos, forma ácido carbônico, que causa a acidificação. Tal efeito no oceano atinge principalmente os recifes de corais, pois reduz a disponibilidade de carbonatos que são muito utilizados pelos seres vivos que compõem estes habitats. Os corais utilizam os carbonatos para a formação as estruturas calcárias, o que é um grande problema para todo o ambiente marinho, visto que os recifes são utilizados por diversos seres vivos como refúgio e posto de alimentação, por exemplo.

  Estudiosos previram durante a era pré-industrial, que se fosse dobrado a quantidade de carbono encontrada na atmosfera durante a industrialização, haveria uma redução correspondente a mais de 40% na calcificação dos corais, ao inibir a formação da aragonita (que é a principal forma cristalina depositada nos corais no processo conhecido como embranquecimento dos corais). Porém, relatos atuais de embranquecimento de corais têm indicado que a quantidade atual de carbono na atmosfera é muito mais alta do que o dobro que tínhamos na era industrial.

   Grande parte disto se deve ao fato de que, como dito anteriormente, a interferência dos seres humanos no planeta tem causado um grande aceleramento neste processo denominado aquecimento global. Uma prova disto está na estimativa de que 25% de todo o CO2 atmosférico atual provenha de intervenções humanas. Além de que, os relatórios do IPCC mostram que os aumentos na temperatura estão cada vez mais acentuados ao longo dos anos, principalmente por interferências antrópicas.

   Além da emissão de CO2, outro grande fator que tem modificado o clima do planeta é a emissões de gases que degradam a camada de ozônio ou os gases do efeito estufa e que afetam diretamente o efeito estufa. Nas regiões com “buracos” no ozônio, uma maior absorção da radiação solar pelo planeta ocorre, que por sua vez fica retida e acelera ainda mais o aquecimento global. Outrora, nas regiões com degradação nos GEF, não ocorre a retenção correta da radiação que entra na Terra, o que leva a um resfriamento daquele local.

   As alterações climáticas do planeta tem causado muitas preocupações aos países, principalmente pelos relatórios do IPCC em que há previsões de que até metade deste século aumente consideravelmente a precipitação de algumas regiões, levando e inundações. Enquanto em outras regiões, estima-se que a temperatura aumente ainda mais as épocas de seca. Além disso, ainda prevê-se que provavelmente entre 20% e 30% de toda a flora e fauna seja extinta caso as temperaturas  médias aumentem de 1,5ºC a 2,5ºC (Juras, 2008).

  Portanto, nosso papel atual é tentar reverter este processo de aquecimento ou pelo menos freia-lo enquanto há tempo. Para isto muitos governos fazem periodicamente conferências internacionais para avaliar os riscos e tentar tomar medidas para desacelerar o aquecimento global e impedir uma catástrofe global iminente. No entanto, as medidas decididas não são levadas a sério ou não são cumpridas, principalmente pelos países mais industrializados e bem desenvolvidos, que tendem a visar muito mais o lucro do que a conservação do meio ambiente. Apesar de todos os esforços apontados para a conservação, o Brasil ainda se encontra atrasado em relação aos outros países do mundo na conservação da biodiversidade.

Bibliografia consultada:

JURAS, I. A. G. M. (2008). Aquecimento global e mudanças climáticas: uma introdução. Plenarium, v.5, n.5, p.34-46. Outubro de 2008.

MARENGO, José A. (2009). Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade: caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI. Brasília: MMA, 2007. 2ª edição.

SILVA, R. W. C.; PAULA, B. L. (2009). Causa do aquecimento global: antropogênica versus natural. Terra e Didática. 5(1): 42-49. Disponível em: <https://www.ige.unicamp.br/terraedidatica/v5/pdf-v5/TD_V-a4.pdf> Acesso em: 30 de junho de 2019.

WALTHER, G. R.; POST, E.; CONVEY, P.; MENZEL, A.; PARMESAN, C.; BEEBEE, T. J.; ... & BAIRLEIN, F. (2002). Ecological responses to recent climate change. Nature, 416(6879), 389.

Fonte da imagem:

Mena kamil (Own work) [CC BY-SA 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)], via Wikimedia Commons.