Como as técnicas forenses podem apontar fake news históricas

Escrito por: Ana Paula Martins - 03/02/2021

Revisado por: Vitória Ferreira Doretto

Descobertas científicas sobre a vida, morte e genealogia do rei Ricardo III

   

   Espalhar fake news sobre os adversários é uma técnica bem antiga, mas a Ciência está sempre na luta para desmenti-las, sejam as recentes ou as históricas, como ocorreu com Ricardo III - ele foi o último rei da Inglaterra pertencente à casa York. Apesar do curto reinado (1483-1485), é um rei muito famoso - embora seja uma má fama - e sua história é cheia de peculiaridades e controvérsias que se estendem até os dias de hoje. As técnicas forenses modernas esclareceram onde seu corpo foi enterrado e amenizaram seu aspecto físico deformado, internacionalmente difundido pela obra de Shakespeare. 

 

   Trata-se da identificação humana através da amostra de DNA mais antiga até o momento. O processo ocorreu de forma semelhante ao que é feito para qualquer pessoa desaparecida, mas chegar à identificação não é comum quando a pessoa está desaparecida há aproximadamente cinco séculos, como era o caso dos restos mortais de Ricardo III. 

 

   Neste texto, você vai saber um pouco sobre a história e a fama de Ricardo III, como ocorreu a descoberta de seus restos mortais e como as análises químicas, morfológicas e de DNA do esqueleto ajudaram na sua identificação. Abordo também, algumas diferenças entre as análises forenses de pessoas desaparecidas recentemente e aquelas que desapareceram há centenas de anos. 

 

O MOTIVO DA MÁ FAMA
 

   A morte de Ricardo III ocorreu após 30 anos de batalhas entre a Casa York e os Lancaster pelo trono da Inglaterra, a Guerra das Rosas. Era, portanto, interessante para os reis da família Tudor (herdeiros diretos dos Lancaster), que o sucederam, disseminar uma imagem ruim do último rei da Casa York como forma de legitimar o próprio trono. Por isso, poetas e escritores da época, com sua liberdade de criação, tendiam a favorecer os interesses da família real. 

Parte da má fama de Ricardo se deve à obra "Ricardo III" de Shakespeare, escrita pouco mais de 100 anos após a sua morte. Na peça, ele é retratado como um personagem genial e charmoso, mas também enganador e manipulador no contexto da longa guerra civil inglesa. O autor estabeleceu ainda uma relação de causa e consequência, muito comum à época, entre as características físicas de Ricardo (um "corcunda alejado") e sua maldade interior (sendo capaz de matar seus sobrinhos para se manter no governo).

 

   Apesar da imagem de grande vilão construída para Ricardo III durante a dinastia Tudor, alguns documentos do século XV atribuem a ele algumas qualidades, inclusive um grande coração. Para os historiadores modernos, trata-se apenas de um administrador não menos culpado por crimes políticos do que seu sucessor Henrique VII, por exemplo. E que, apesar de sua fama construída como cruel e assassino, foi responsável por importantes mudanças, que incluem a aplicação da "presunção de inocência", nas leis inglesas. No entanto, a distinção entre os fatos históricos e as histórias inventadas durante o reinado dos Tudor é algo que ainda intriga estudiosos e leigos.

 

A HISTÓRIA


   Ricardo assumiu o trono inglês após a morte de seu irmão, Eduardo IV, através de uma manobra que impediu que seu sobrinho, com 12 anos na época, assumisse. Apesar da fama de assassino dos sobrinhos, não há certeza alguma sobre o que ocorreu com eles após Ricardo assumir o trono graças à invalidação do casamento de seu irmão (rei Eduardo IV).

A antiga disputa dos York (família a qual pertencia o pai de Ricardo, terceiro Duque de York, e seus descendentes) com a família Lancaster (sucedida pelos Tudor) ficou ainda mais conturbada durante o seu reinado, que terminou com sua morte na batalha de Bosworth, em 1485. Henrique VII, então, assumiu o trono como o primeiro rei da dinastia Tudor, após 300 anos de reinado dos Plantageneta (York e Lancaster) - veja aqui a genealogia das famílias envolvidas na Guerra das Rosas, que se encerrou com a morte de Ricardo III e o casamento de sua sobrinha Elizabeth de York com o rei Henrique VII.

 

   Após sua morte, o corpo de Ricardo III foi exposto publicamente em Leicester (veja o mapa de como era a cidade na época medieval) e posteriormente entregue aos frades franciscanos para que providenciassem seu enterro. Porém, os registros sobre o destino dos seus restos mortais se perderam durante o reinado de Henrique VIII, quando este acabou com os mosteiros na Inglaterra. Surgiram então alguns rumores de que os ossos haviam sido jogados num rio em Leicester. 

 

A PRIMEIRA DESCOBERTA
 

   Procurando reencontrar este pedaço perdido da história inglesa, em 2011, pesquisadores da Universidade de Leicester, com a colaboração da Sociedade Ricardo III e do Conselho da Cidade de Leicester, iniciaram um grande projeto arqueológico para encontrar o túmulo de Ricardo III - veja aqui porque resolveram procurar o corpo após mais de 500 anos.

 

   Em 2012, alguns esqueletos foram encontrados sob o estacionamento do Conselho Municipal de Leicester, onde estava localizado um antigo mosteiro dos Frades Franciscanos Menores, demolido em 1538. Um desses esqueletos chamou bastante a atenção dos pesquisadores. Ele apresentava pelo menos 11 marcas feitas próximas ao momento da morte (logo antes ou logo após), pois, nenhuma delas mostrava início de recuperação. As lesões sustentam que a pessoa sofreu vários golpes na cabeça feitos por armas diferentes. E ainda, a posição das mãos indicava que elas estavam amarradas. As marcas condiziam, portanto, com as causas da morte do último rei Plantageneta, o último rei inglês a morrer numa batalha.

 

   Além disso, havia uma deformação na coluna (uma escoliose severa) que correspondia aos relatos históricos de sua aparência deformada. No entanto, a deformação não era uma corcunda (cifose) como descrita na literatura, mas uma curvatura lateral desenvolvida, provavelmente, durante a adolescência. Pela análise do esqueleto, embora visível e causadora do ombro direito mais elevado que o esquerdo, como retratado em algumas pinturas e textos, essa deformidade não era incapacitante.

 

   A análise forense das articulações indicou que se tratava de uma pessoa entre 30 e 34 anos e Ricardo III tinha 32 anos quando morreu. Mas, não havia evidências de braços atrofiados como citados pela literatura de Shakespeare. Por outro lado, sua descrição como um homem magro e esguio estava de acordo com o esqueleto. 

As análises morfológicas de um esqueleto para apontar possíveis causas da morte, altura, anomalias e idade fazem parte de investigações que buscam identificar pessoas desaparecidas. Quando há radiografias dentárias disponíveis, elas podem ser comparadas à arcada dentária do esqueleto para fazer a identificação, pois, o formato e a posição dos nossos dentes são únicos. No entanto, este não era o caso, sendo necessárias outras análises para realizar a identificação. Partindo destas primeiras evidências, o esqueleto foi submetido a análises químicas. 

"SOMOS O QUE COMEMOS": A ANÁLISE DA DIETA


   Todos os átomos que formam as moléculas do nosso corpo são obtidos dos alimentos que ingerimos. O nosso esqueleto vai sendo construído com parte desses átomos ao longo da vida. Por isso, se a composição da nossa alimentação muda ao longo dos anos, essas mudanças podem ser observadas quando analisadas diferentes partes do esqueleto. Por exemplo, os nossos dentes permanentes são formados na infância, grande parte do nosso fêmur é renovada na fase adulta e as costelas, ao longo dos últimos anos (qualquer que seja a idade). 

 

   De forma natural, a massa de alguns átomos (isótopos) varia para um mesmo elemento químico devido a uma diferença no número de nêutrons no núcleo. Eles podem ser estáveis (não se degradam com o tempo), como Carbono-12 e 13, ou instáveis, como o C-14. 

 

   A proporção entre os isótopos, raro e comum (de carbono, C-13/C-12, nitrogênio, N-15/N-14, oxigênio, O-18/O-17, e estrôncio, Sr- 87/Sr-86), são características de um determinado local, devido à composição mineral do solo e precipitação e deixam uma "impressão digital química" nas plantas, nos animais e no esqueleto das pessoas que vivem ali. Por isso, é possível saber a região onde uma pessoa morou ao longo da vida analisando essa proporção. 

Além disso, a composição da dieta também influencia nessa "impressão digital", sendo possível identificar se uma pessoa teve uma alimentação mais rica em vegetais ou proteína animal - e até mesmo a origem desses alimentos. Somente no final do século 20 análises isotópicas começaram a ser usadas na arqueologia e atualmente é amplamente utilizada na área forense, por exemplo para descobrir a origem de esqueletos humanos não identificados - veja aqui uma revisão das análises isotópicas aplicadas a esqueletos humanos.

 

   Pela análise isotópica, o esqueleto encontrado é de uma pessoa que nasceu no Leste da Inglaterra, morou no Oeste durante sua infância e mudou-se novamente para o Leste na adolescência ou início da fase adulta. Além disso, possuía uma dieta rica em proteína animal, o que era comum somente aos nobres da época, pois, podiam pagar por esses alimentos. 

DATAÇÃO DO ESQUELETO 


   Como o mosteiro foi demolido em 1538, o esqueleto não poderia ser mais recente que essa data, mas poderia ser mais antigo que a data da morte de Ricardo III. Para confirmar que o esqueleto não era muito mais antigo do que 1485, foi realizada uma datação por C-14. 

 

   Uma pequena parte dos átomos de carbono no mundo contém naturalmente 2 nêutrons a mais que o átomo de carbono mais comum, C-12 (com seis prótons e seis nêutrons). Como os demais isótopos, obtemos constantemente o C-14 através da alimentação e liberamos parte dele na respiração. No entanto, por ser instável, após a morte, a quantidade de C-12 permanece igual e a quantidade de C-14 no nosso corpo diminui com o tempo. 

   A velocidade (quantidade/tempo) em que ocorre a perda desse carbono após a morte é conhecida. Através dela, é estimado o tempo aproximado entre a morte daquele ser vivo e a datação. Assim como as análises isotópicas, a datação por C-14 é uma técnica desenvolvida no século 20 - veja aqui a história da datação por C-14.

 

   Para realizar a datação, quatro pequenas amostras das costelas do possível esqueleto de Ricardo III foram utilizadas. Dois laboratórios diferentes fizeram a datação de duas amostras para obter maior confiabilidade nos resultados. Os resultados finais indicaram que a data da morte do esqueleto analisado estaria entre 1455 e 1540 (com 95% de probabilidade). 

 

   Estes resultados ainda não levavam à identificação direta do esqueleto, mas descartaram a possibilidade de que um outro nobre inglês com a idade de Ricardo III e com uma escoliose severa na coluna tivesse sido enterrado na igreja do mosteiro muito antes da data conhecida de sua morte. 

A ANÁLISE GENÉTICA


   Cada célula do nosso corpo que contém um núcleo possui uma cópia completa do nosso genoma (com 46 cromossomos) ou metade dele (no caso das células reprodutivas, espermatozóide e óvulo, com 23 cromossomos). Cada cromossomo é uma molécula de DNA e utiliza diversas combinações de bases nitrogenadas (Adenina, Guanina, Citosina e Timina) para programar diferentes características de uma pessoa. A maior parte dessas  combinações são iguais entre as pessoas, da mesma família ou não. 

 

   Por isso, somente pequenos segmentos do DNA, cuja variação na sequência é capaz de identificar uma pessoa ou seus parentes mais próximos, interessa para a análise forense. Esses segmentos são chamados de marcadores moleculares e as variações observadas em cada marcador são os alelos. O conjunto de alelos de uma pessoa (perfil genético) é formado por alelos do pai e alelos da mãe e, por isso, parcialmente compartilhado com irmãos e, em menor grau, com outros parentes próximos.

 

   Atualmente, vestígios forenses contendo células (amostras de sangue, raiz de cabelo, dentes, ossos, outros tecidos) podem ter seu perfil genético estabelecido. Quando comparado com um banco de dados ou com parentes próximos, o perfil genético pode levar à identificação de um indivíduo (origem do vestígio) ou do seu parentesco com as pessoas comparadas - essa técnica também começou a ser utilizada na área forense a partir do final do século 20. 

 

   No entanto, após a morte de uma pessoa, o DNA começa a se degradar, sendo quebrado em pedaços cada vez menores, o que dificulta ou impossibilita definir seu perfil genético. Além disso, não há um banco de dados de indivíduos da idade média ou algum parente próximo para estabelecer um parentesco. Por isso, quando se trata de vestígios muito antigos, ao invés do perfil genético, que é composto por alelos distribuídos em diferentes cromossomos, apenas o DNA mitocondrial e o DNA (genômico) do cromossomo Y são analisados. 

POR QUE USAR DNA MITOCONDRIAL E DO CROMOSSOMO Y?


   Diferente do DNA genômico, composto por 46 moléculas lineares distintas e presentes no núcleo, o DNA mitocondrial (mtDNA) fica localizado nas mitocôndrias, com várias cópias por célula e formato circular. Esse formato, o grande número de cópias e o seu tamanho reduzido permitem que o mtDNA seja mais facilmente sequenciado mesmo com a degradação iniciada após a morte. Além disso, a taxa de mutação neste DNA é reduzida em relação ao genômico. Ele não passa por recombinação durante a meiose (divisão celular que dá origem aos gametas) e sua herança é majoritariamente materna. Ou seja, o mtDNA é passado da mãe para todos os filhos (linhagem monoparental feminina) e é bastante conservado entre as gerações, enquanto o DNA genômico é resultado de uma mistura do DNA materno com o paterno a cada geração. 

   O cromossomo Y, embora faça parte do DNA genômico, é passado somente de pai para filho (linhagem monoparental masculina) através das gerações. Ele possui uma parte que não faz recombinação com o seu cromossomo homólogo X durante a meiose. Portanto, possui uma sequência conservada ao longo das gerações.

 

A ÚLTIMA CONFIRMAÇÃO
 

   Independente do DNA analisado, para fazer a identificação genética de um vestígio biológico, ele precisa ser comparado com o de pessoas vivas que possuem algum parentesco com a possível pessoa que deu origem ao vestígio. No caso de  Ricardo III, por pertencer à nobreza, cuja genealogia é melhor registrada, foi possível estabelecer parentes tanto pela linhagem exclusivamente materna (descendentes de sua irmã Anne de York), quanto paternas (descendentes do seu tio bisavô João de Gaunt). Ambas as linhagens poderiam confirmar que o esqueleto pertencia à genealogia de Ricardo III e refutar qualquer dúvida sobre sua identificação que ainda pudesse existir.

 

   De acordo com o resultado publicado em 2014 na revista Nature, o mtDNA do esqueleto analisado é idêntico ao de uma pessoa da mesma linhagem feminina de Ricardo III. Comparado ao mtDNA de outra pessoa também da mesma linhagem, ele contém apenas uma modificação em sua sequência, o que é compatível com as 21 gerações que separam os dois. A probabilidade de as sequências serem compatíveis simplesmente ao acaso, e não por serem da mesma família, foi estimada, de forma bastante conservadora, em menos de 0,1%.

 

  Estes resultados, portanto, confirmam as demais evidências de que o esqueleto encontrado sob o estacionamento do Conselho Municipal de Leicester é realmente de Ricardo III.

ALGUMAS INFIDELIDADES REVELADAS


   O resultado da análise do cromossomo Y, por outro lado, não identificou uma correspondência com parentes vivos de Ricardo III pela linhagem masculina. Este resultado não anula aquele obtido pela análise do mtDNA, mas confirma que casos de infidelidade, com falsas paternidades, ocorreram em qualquer geração entre Ricardo III e a atual. Embora inesperada, a descoberta não é exatamente uma surpresa, ainda mais considerando que pelo menos 24 gerações separam os parentes atuais de Ricardo III. 

   Por fim, como vimos, técnicas científicas recentes aplicadas à área forense foram capazes de identificar os restos mortais do rei Ricardo III e separar fatos de fake news a seu respeito. Mas, neste caso, elas também trouxeram um pouco mais de intrigas para a família. No entanto, as intrigas do passado não causarão nenhuma mudança na atual família real britânica.  
 

representacao-dos-isotopos-elemento-quim

Isótopos do oxigênio.  Fonte: Manual da Química, 2017

Referências bibliográficas

https://www.le.ac.uk/richardiii/documents/radiocarbon-dating-glasgow-oxford.pdf
https://www.le.ac.uk/richardiii/history/medievalleicester.html
https://www.le.ac.uk/richardiii/index.html
https://www.nationalgeographicla.com/historia/2019/07/tus-huesos-pueden-revelar-donde-creciste-y-cual-fue-tu-alimentacion
https://www.nature.com/articles/ncomms6631
https://periodicos.pf.gov.br/index.php/RBCP/article/download/585/368
http://www.richardiii.net/ 
https://shakespearebrasileiro.org/introducao-a-tragedia-do-rei-ricardo-terceiro/
https://veja.abril.com.br/ciencia/esqueleto-de-ricardo-iii-reacende-debate-sobre-aparencia-e-personalidade-do-monarca/