Antes um pulmão, agora um coração

Por Alexandra S. Farias

      A floresta tropical mais falada pelos quarto cantos do planeta é um coração. Mas antes disso o mundo a conhece como berço e local de biodiversidade com imensa beleza, diversidade de cores, tamanhos, sabores e bravuras, mas ultimamente (a mais de 10 anos) é olhada como uma riqueza monetária, e para outras pessoas conhecida pela tristeza ou raiva do abuso mais do que escancarado, ofertado, ao desmatamento progressivo. A Floresta Amazônica não sendo uma entidade, mas sim um patrimônio natural mundial tem oferecido o que não é mais essencial aos olhos de diversos governantes e simpatizantes, a tal da água; em específico ao centro oeste e o sudeste do Brasil. Talvez seja ou não novidade que o regime de chuvas dessas regiões brasileiras é proveniente de uma combinação “milagrosa” chamada clima e floresta, acrescenta-se aqui a Cordilheira dos Andes.

     As florestas tem uma capacidade que ao longo de diversos anos de pesquisa, que hoje muito melhor compreendida, de regular o clima que são favoráveis a elas. Uma grande floresta tem enormes árvores que funcionam como geisers, transportando água da raiz até atmosfera, transpirando bilhões de litros de água (é assim que a floresta amazônica funciona), fazendo de um simples local florestado, em um ambiente complexo.

   Esse ambiente complexo do oceano verde amazônico, teve atenção de diversos pesquisadores, entre eles Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva; eles já realizavam suas pesquisas sobre regulação biológica do ambiente, mas ao estudarem a grande floresta tropical puderam aprimorar sua teoria. A teoria da bomba biótica de umidade, que segue em estudos desde 2007, mostra que a relação entre transpiração e condensação de água, mediada por diversas árvores, faz com que a dinâmica e a pressão atmosférica mudem e resultem em maior umidade vinda do oceano para o interior dos continentes.

     Isso acontece com um processo talvez complicado, mas nada que assuste: “a condensação do vapor d’água na atmosfera gera uma redução localizada de pressão e produz potência dinâmica que acelera os ventos ao longo do resultante gradiente de pressão". Esse processo faz com que as florestas determinem a direção e a intensidade dos ventos oceânicos que trazem chuva. Interessante é perceber que primeiro as árvores precisam perder energia, através da exacerbada transpiração, para provocar tal fenômeno atmosférico que se torna benéfico tanto para as florestas quanto para o grande quadrilátero econômico da América do Sul (Cuiabá, ao Norte, São Paulo, a Leste, Buenos Aires, ao Sul, e a cordilheira dos Andes, a Oeste).

     O que tem a ver tudo isso com a Amazônia ser um coração e não um pulmão? Nas escolas geralmente temos a representação do ciclo hidrológico desse modo:

    No entanto quando inserimos a Floresta Amazônica nesse contexto, algo diferente acontece. Em 1979, Salati e colaboradores fizeram um reconhecimento por isótopos do fluxo de entrada do vapor oceânico que caia como chuva na região amazônica e comparavam com o que saia pelos rios e concluíram que o que entrava pela atmosfera não correspondia com que saia por terra. Disso também pensaram que a Amazônia estava exportando vapor d’água para outras regiões do Brasil. Analisaram a chuva do Rio de Janeiro e reconheceram que a precipitação vinha do interior do continente e não dos oceanos como se pensava e que a mesma tinha passado pela região amazônica.

     Hoje conhecidos como Rios Voadores, essas “nuvens” de vapor que chegam à região centro oeste e sudeste do país, são responsáveis pelo regime de chuva e que modifica a fisionomia bem diferente de uma savana ou deserto, como era de se esperar para esse território, se comparamos ao que vemos na mesma latitude alinhadas no globo, como o deserto do Atacama, do outro lado dos Andes, os desertos da Namíbia e Kalahari, na África, e o deserto extenso da Austrália.

    De toda essa história temos uma nova visão sobre um ciclo hidrológico um pouco mais completo: “A água irriga e drena os solos de forma análoga ao sangue, que irriga e drena os tecidos do corpo. Se os familiares rios são análogos às veias, que drenam a água usada e a retornam para a origem no oceano, onde ficam as artérias do sistema natural? São os rios aéreos, que trazem a água fresca, renovada na evaporação do oceano. Para completar o sistema circulatório faltava somente o coração, a bomba que impulsiona os fluxos nas artérias aéreas. A teoria da bomba biótica veio explicar que a potência que sugere os ventos canalizados nos rios aéreos deve ser atribuída à grande Floresta Amazônica, que funciona, então, como coração do ciclo hidrológico”.

Saiba mais

Nobre AD, 2014, O Futuro Climático da Amazônia, Relatório de Avaliação Científica. Patrocinado por ARA, CCST-INPE, e INPA. São José dos Campos, Brasil, 42p. Disponível online em: http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/10/Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf.

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