Aliens vivem em lacunas e alimentam-se de frustração

Escrito por: André L. Tirollo dos Santos - 31/03/2021

Revisado por: Jéssica Palácio Arraes

   Nossas mentes não conseguem lidar bem com a conclusão “eu não sei”. Três palavras, milhares de impulsos nervosos trafegando frustração por nossas sinapses. Estamos sempre, mesmo que inconscientemente, buscando por padrões, respostas, mesmo que muitas vezes elas não estejam ao alcance de nossos sentidos limitados e conhecimento ínfimo da realidade na qual estamos imersos e do universo do qual fazemos parte. É aí que a criatividade entra em cena e “puf”, a origem da vida, do universo e tudo mais surge num passe de mágica. É aí que o sucesso financeiro descomunal de uma pessoa, em meio a um mundo tão desigual e injusto, de poucas oportunidades, é explicado por pactos, seja com o diabo, com os Illuminati ou com a Ordem de Rosacruz. E as pirâmides do Egito? Como é possível que Homo sapiens lá da antiguidade soubessem tanto com tão poucas ferramentas disponíveis? Aliens, claro.

   Onde falta ciência, sobra misticismo, abunda superstição, alimentam-se paranoias.  É por isso que, ao ensinar alguém sobre um tópico científico, de nada adianta apresentar-lhe os resultados, as conclusões, as equações complexas, se não apresentar-lhe a metodologia científica, se não ensinar-lhe a questionar, a construir um cenário experimental que ponha constantemente à prova aquilo que é estabelecido como verdade para si mesmo e para o senso comum. Ensinar ciência sem a filosofia a ela inerente é substituir uma crença subjetiva por outra crença. Sim, outra crença de caráter mais objetivo, mais embasada, contudo ainda assim uma crença. Além disso, tal substituição se dá de maneira pontual, para determinado fenômeno ou conjunto de fenômenos. Isso faz com que, diante de uma nova informação, sob impossibilidade de separar o joio do trigo, num mundo com cada vez mais informações à disposição do indivíduo, sejam elas pautadas na realidade (ou na melhor tentativa de explicá-la) ou na opinião do gamerpatriotaANCAP109 que fez um post agressivo no 4chan, o indivíduo, indeciso, muitas vezes sucumba às tentações de se agarrar aos “dados” que corroboram a visão de mundo de sua bolha social e intelectual. É aí que surgem cenários bizarros, tais  como debates acalorados sobre o formato da Terra, destruição de antenas de 5G por suspeita de que estas causem COVID-19, entre outros. É aí que se subjuga o conhecimento matemático e arquitetônico de civilizações humanas históricas, considerando mais razoável a hipótese de que humanóides provenientes de outros planetas, portadores de tecnologia de ponta, e que, curiosamente, nunca mais deram as caras por aqui, tenham compartilhado com tais civilizações humanas históricas apenas a simples técnica de como construir um túmulo de forma geométrica tridimensional básica, ao invés da possibilidade de que nossos semelhantes de épocas passadas tivessem capacidade de arquitetar isso sozinhos.

   Ensinar ciência não é e nunca foi o mesmo que vomitar dados. Ensinar ciência é, sobretudo, subverter a audácia preguiçosa do cérebro humano de procurar as verdades mais convenientes, mais subjetivas. É botar à prova todas as ideias para com as quais há um apego incondicional. 

   Como diria o ET Bilu, busquem conhecimento (de verdade).
 

Fonte da imagem: Harrsch, 2017. Link: https://www.flickr.com/photos/mharrsch/27911893979