Desculpem, poetas, mas a escrita surgiu com um recibo de cevada

Escrito por: Sofia Dallasta Pedroso - 30/11/2020

Revisado por: Jéssica Palácio Arraes

  É característica única do Homo sapiens a construção de comunidades globais com milhões de indivíduos, sendo estes grupos unificados por um fator imaterial denominado cultura. A Sociologia é um ramo da ciência que se preocupa desde seu início em entender como os homens se relacionam e a cultura é fruto destas relações, sendo definida em termos gerais como o conjunto de saberes e tradições de um povo que são passadas entre as gerações. O primeiro ponto interessante sobre este conceito é a necessidade de interação social para a geração da cultura, o que explica em termos genéricos a pluralidade de culturas observadas entre os homens, vista a igualmente vasta diversidade de experiências compartilhadas entre grupos diferentes. O segundo ponto interessante sobre este conceito – e o foco principal desta discussão – é a maneira segundo a qual a cultura pode ser transmitida entre gerações.

  Ao abrir o Facebook ou rolar pelo feed do Instagram vemos cultura. Ainda mais: vemos pessoas reproduzindo cultura. Imagens, textos, músicas, performances, tudo é cultura. E como é vasta a capacidade do sapiens de propagá-la! Um pincel, uma caneta ou o próprio corpo podem ser instrumentos para comunicação de crenças, emoções ou até mesmo informações acadêmicas. Todavia, esta maneira amplamente diversificada de comunicar-se nos dias de hoje é recente em termos evolutivos e figura um comportamento moderno do homem. Como os primeiros sapiens expressavam amor? Como contavam histórias de batalha? Como marcavam datas e números importantes?

  É um pouco romântico dizer que o Homo sapiens é um contador de histórias nato, mas esta definição retrata bem como se iniciaram as tradições orais de propagação de cultura. Técnicas de caça, topografia de regiões próximas e ciclos de chuvas eram conhecimentos necessários no contexto caçador-coletor - e depois agrário - dos sapiens. Sendo assim, é natural que estas informações fossem memorizadas e passadas oralmente entre as gerações. Todavia, há um limite de dados que o cérebro humano pode armazenar e a propagação oral de informações foi se tornando cada vez mais difícil entre os homens, especialmente à medida em que agrupamentos cada vez maiores de indivíduos foram surgindo na evolução. É possível decorar a topografia do terreno próximo a uma comunidade de 100 indivíduos, mas esta tarefa se tornou praticamente impossível quando se tratava do espaço ocupado por todas as cidades-estado sumérias. Ademais, a evolução de agrupamentos humanos para impérios traz consigo a necessidade de armazenar dados para os quais o cérebro humano não está adaptado: sapiens são seres sociais, portanto, é natural armazenar informações de cunho social ou que envolvem a comunidade, desta forma, guardar e processar dados sobre o número de grãos de cevada comercializado pelo império em um ano não é tarefa fácil e muito menos natural para o cérebro humano. Por fim, sapiens morrem e a passagem de histórias entre gerações certamente é prejudicada e leva à perda de informações cruciais no processo.

  Neste contexto, surge a escrita. Os primeiros registros classificados como “pré-escrita” vieram dos sumérios e eram pictográficos, ou seja, uma única imagem representava uma ideia ou processo. No entanto, decepcionam-se os poetas e românticos de espírito ao pensar que estes se tratavam de confissões entre amantes sumérios. Não. O primeiro registro da escrita suméria marca o sucesso de Kashum, o produtor, que comercializou 29.086 medidas de cevada em 37 meses. Todavia, é brilhante observar como a escrita suméria passa então a perpetuar a cultura deste povo, visto que tábuas de argila datadas desta época contam a história de como a deusa Inanna rouba a escrita do deus da sabedoria, Enki.

Tábua de argila de Uruk registrando a transação comercial de cevada

Tábua de argila suméria demostrando o roubo da palavra escrita por Inanna.

  Um terceiro e último ponto a ser analisado neste contexto é a especialização dos cérebros humanos ao longo dos anos para uma tarefa ainda mais complexa que gravar números e operações em tábuas de argila. Certamente a criação de sistemas de escrita foi um processo longo e que demandou dos sumérios antigos uma adaptação para fazê-lo. Todavia, um fenômeno ainda mais contrário à tendência natural do cérebro humano é armazenar e processar de maneira lógica estas informações em grandes arquivos físicos, categorizando-as de acordo com critérios de necessidade e situação. Surgiu, então, uma nova maneira de pensar quase burocrática, que fez com que certos grupos de sapiens fossem capazes de usar uma linha de raciocínio lógico-matemático. A psicologia e a filosofia sabem hoje que pessoas diferentes apresentam maneiras igualmente diferentes de estruturar seus pensamentos e emoções. Seria cabível, então, inferirmos que traços lógicos estariam relacionados com estes “burocratas sumérios”? Isto é uma questão extremamente difícil de ser respondida e que abriga não somente psicólogos, mas também sociólogos, biólogos evolucionistas, filósofos e tantos outros. No entanto, uma coisa é certa: o exemplo dos sumérios para o surgimento da escrita ocorreu para diversos povos de maneira independente ao longo da evolução humana e prova o poder da palavra – bem como das outras formas de perpetuar cultura – nas sociedades humanas, enraizando a necessidade do sapiens de comunicação e contato com o outro, ponto este que em tempos de pandemia e isolamento social nunca se provou tão claro.

Referências bibliográficas

https://www.todamateria.com.br/o-que-e-cultura/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-40245708

https://www.bbc.com/portuguese/geral-39842626

Collins, P. (1994). The Sumerian Goddess Inanna (3400-2200 BC). Institute of Archaeology, 5, 103-118.

Kramer, S. N. (2010). The Sumerians: Their history, culture, and character. University of Chicago Press.

Yuval Noah Harari (2011) Sapiens – Uma Breve História da Humanidade. 29ª Edição. Editora Harper. Pág. 443