Gato com Third Eye

Visão Animal

Por Joanna Laura Massaia de Oliveira - 30/12/2020

   A vida animal sempre foi foco de muito interesse dos seres humanos. O que eles pensam? O que eles sentem? O que eles veem? Muitas perguntas ainda não foram respondidas, outras já, mesmo assim, ainda é possível encontrar pequenos detalhes nas relações ecológicas que os humanos do passado pouco conheciam.

Imagine que você estava vivo em 7000 A.C, no Oriente Médio, mas não no seu corpo presente, e sim no corpo de uma cabra! Antes das cabras e bodes serem domesticados por humanos, para consumo de leite e carne, eles tinham que se defender sozinhos de predadores – e isso incluía a fuga, é claro, mas a também percepção.

   O você-cabra, vivo em 7000 A.C, está pastando com seus amigos cabras e bodes quando um predador parece se aproximar e, para que nenhum de vocês percebam sua presença, ele vem contra o vento. Sua cabeça de cabra está abaixada ruminando a grama, sua porção de grama acaba e você tem que andar alguns passos para ruminar mais. É aí que algo interessante acontece, com sua visão você percebe uma porção de mato alto, se movendo de maneira não convencional. É o predador.

  Graças a sua percepção visual, que evoluiu para perceber predadores, você corre, o que alerta suas amigas e amigos, que correm também. O predador não terá jantar hoje. Graças a sua visão adaptada, você conseguiu avistar um predador enquanto ruminava grama. O você-cabra não se importa em saber como isso é possível, mas e o você-ser humano? Vamos voltar para 2020, agora você é um humano novamente.

 

                                                                                                             

                                                                                                                               

                                                                                                                                Legenda: Olhos de lagartixa, lince, caprino,                                                                                                                                     coruja, seguindo os padrões de pupilas

                                                                                                                                 mencionados no texto.

                                                                                                                                 Fonte: Imagens alteradas do Pixabay.

   Nós seres humanos sabemos que a relação de predatismo tem uma definição simples, é o consumo de um organismo A por um organismo B, enquanto o organismo A esta vivo. Porém, essa relação ecológica é muito mais complexa na prática do que parece no papel. Um ótimo exemplo dessa complexidade é avaliar a evolução da visão de predadores e de presas, observando o formato de suas pupilas.

  A pupila funciona como uma cortina em uma janela, quando precisamos de mais luz para enxergar, abrimos a cortina para entrar mais luz, mas quando está muito claro lá fora, fechamos a cortina. Essa relação não se altera entre predadores e presas, mas o formato da pupila sim. Ela pode vir em vários formatos, vertical (como nos gatos domésticos), circular (igual nossos olhos humanos), sub-circular (por exemplo, os olhos dos linces) e horizontal (como as cabras domésticas).

  Animais com pupilas verticais costumam ser predadores de emboscada, porque o formato desse tipo de pupila auxilia na percepção da distância da presa, seja no chão ou empoleirada, desfocando o fundo da imagem para concentrar todo o foco no ataque. Por isso, esses animais se preparam antes de atacar, pois o primeiro golpe precisa ser o melhor. Ao realizar a emboscada, eles têm tempo de calcular a distância da presa, o tamanho do salto ou a quantidade de corrida que precisarão fazer.

  Já as pupilas horizontais são mais comuns em animais terrestres, que costumam olhar mais para o chão. Esse formato de pupila auxilia em uma qualidade de imagem superior na horizontal. O que na prática significa que durante o ato de procurar por alimento é possível observar, com qualidade de imagem, toda a linha próxima ao chão, facilitando a visão de qualquer predador e também das possíveis rotas de fuga.

  É claro que a relação entre a pupila dos animais e seu papel na teia alimentar não é uma lei, mas algo a observar quando o interesse for estudar as relações ecológicas. Uma vez que entre as linhagens de animais, o formato das pupilas se alterou diversas vezes e isso pode ter relação com a mudança do ambiente em que esses animais vivem. De qualquer forma, é bem interessante observar os belos padrões que os formatos de olhos podem criar.

Fontes utilizadas

1) Begon, M.; Townsend, C.; Harper, J. Ecology: from individuals to ecosystems. Blackwell Publishing. 4 edição. Páginas 266-267.
2) Banks, M.; Sprague,W.; Schmoll, J;. et al. Life sciences. Why do animal eyes have pupils of different shapes? Adv. 2015;1:e1500391