A responsabilidade do cientista

Por Joanna Laura Massaia de Oliveira - 21/08/2020

No final do ano de 1859 foi lançado o livro “A Origem das Espécies” de Charles Darwin. O leitor entusiasta deve entender o impacto social e científico que a teoria da evolução trouxe para a sociedade, e como o leque de estudos científicos aumentou e muito com a possibilidade de se explicar como evoluímos e como passamos de “macacos” (conceito errôneo, porém difundido na época e mesmo atualmente) a homens e mulheres.

O presente texto busca trazer uma sequência de eventos que começa com uma ideia científica sendo utilizada para justificar mentalidades e comportamentos cruéis, que fundamentou uma conduta racista, homofóbica, antijudaica, etc. É importante que o leitor entenda que esta é uma visão de uma pessoa da área de biologia e não da área de humanas. Busco nesse texto somente indicar a responsabilidade que os biólogos e cientistas no geral, tem com a sociedade.
Em 1870 o termo darwinismo social começou a ser utilizado para se referir a uma teoria que baseava-se em conceitos da evolução das espécies de Darwin e um pouco das idéias de Lamarck para justificar o pensamento de que pessoas possuíam aptidões e inaptidões, que assim como as espécies, as fariam evoluir socialmente, sendo as pessoas aptas, as ricas e poderosas, enquanto outros, os “inaptos” iriam “naturalmente” perder a competição das espécies e deixar de existir, pois possuiriam deficiências, pouca inteligência, poucas habilidades, etc.

Esse pensamento justificou toda a perseguição que os gays, judeus, ciganos, negros sofreram durante o nazismo e toda a crueldade utilizada para justificar a escravidão que o ocidente utilizou. Diversas áreas permitiram que esse pensamento, hoje comprovadamente incorreto, existisse por tanto tempo.

A genética concordava utilizando os caracteres de fisionomia, como textura do cabelo e cor de pele, tamanho de crânio, etc, para caracterizar os indivíduos como superiores ou inferiores. Os estudos da mente eram justificados pelos psicólogos e neurologistas que diziam que a inteligência também poderia ser medida entre as classes de inferioridade e superioridade. Os estudos da sociologia “comprovaram” que as sociedades menos desenvolvidas eram compostas por indivíduos inferiores e por isso não havia problema em rejeitar minorias.
É importante entender que muitos desses “estudos” foram utilizados para justificar que não havia necessidade de ajudar as minorias com programas sociais, e muito menos se comover com as perseguições e explorações dessas minorias, pois seria natural que eles passassem por isso, até “evoluir” ao padrão dos brancos para somente assim poderem concorrer em igualdade na sociedade.

Esse pensamento barrou muitas mentes brilhantes a alcançarem seu potencial, pois mesmo que uma minoria conseguisse alcançar algum status social, como faculdade, conseguir um emprego seria muito dificultoso, e essa desculpa permitida pela ciência, como “sobrevivência do mais forte”, na realidade, evitou que muitos avanços pudessem ser alcançados como sociedade.
Essa ligação clara entre darwinismo social e uma busca incessante de defender os princípios do capitalismo, da exploração dos mais frágeis socialmente, logo se ligou a ideias eugenistas, e rapidamente incorporou todos os ideais racistas que assumiam negros, indígenas, judeus, etc como incapazes.

A eugenia foi fundada em 1883 por Francis Galton, primo de Darwin. A eugênia procurava utilizar os princípios científicos da época para justificar que a evolução da espécie humana só aconteceria com os brancos se casando e se reproduzindo de acordo com o dinheiro, inteligência e saúde, enquanto pessoas com deficiências fossem esterilizados, como de fato aconteceu nos Estados Unidos de 1900 a 1940 quando foi retirado, legalmente, de 36 mil pessoas o direito de escolherem terem ou não filhos, muitas dessas pessoas possuíam alguma doença mental, ou haviam cometido crimes, que os categorizam como vadios e criminosos, entre outras “justificativas”.
As ideias de limpeza social, variaram de país em país, todas elas tiveram origem na eugenia de Galton na Inglaterra, mas ao chegar em outros países ganhavam regras próprias, buscando justificar um tratamento cruel com as minorias, que eram um “problema” para essa sociedade. Populações de negros, judeus, ciganos, etc, foram muito perseguidas, tendo seus direitos ceifados aos poucos, ou mesmo de uma vez.

Muitos eugenistas utilizavam os ideias da Grécia antiga para justificar ou ilustrar a sociedade “ideal”, uma sociedade de grandes pensadores, intelectuais e sábios. Licurgo de Esparta (800-730 a.C) um legislador de Esparta criou um conjunto de leis que permitiam ao Estado sacrificar crianças recém-nascidas, caso tivessem nascido com qualquer anomalia. A própria palavra eugenia vem do grego Eugenes. Há ainda uma conversa escrita por Platão em que Sócrates teria dito a Glauco que se a população de Roma se reproduzisse, entre os “indivíduos adequados”, os filhos seriam todos “sãos, vigorosos, inteligentes”, inclusive nessa conversa Sócrates compara essa reprodução com a de cães de caça e pássaros.
É notável o esforço que os cientistas e médicos eugenistas possuíam em buscar na antiguidade diálogos, leis e governantes que condizem com o pensamento deles, ao mesmo tempo que produziam estudos com o intuito de encontrar as provas e evidências de que a ideologia era firmada em alicerces científicos. Um desses alicerces científicos, foi firmado por Franz Joseph Gall (1758-1828), quando desenvolveu a Frenologia, a idéia foi um sucesso na época e diversos outros médicos e cientistas ajudaram a desenvolver a ideia, como o médico alemão Johann Spurzheim.

Devido ao preconceito de que quem possuía cérebro maior era mais inteligente, Gall realizou medidas do crânio de seus parentes e amigos, e posteriormente realizou essas medições em criminosos e chegou a conclusão que seria possível determinar 37 traços mentais de acordo com elevações, caroços e depressões no crânio dos indivíduos. A sociedade da época se animou muito com a possibilidade de reconhecer nas feições de um indivíduo sua personalidade, talentos, falhas, inclusive, inclinações para cometer delitos. E muitas pessoas deixaram até de realizar casamentos devido a essas características faciais. Existiam, inclusive, sessões de frenologia, algo aproximado a sessões de astrologia de hoje em dia.
Porém, no final do século XIX quase nenhum médico acreditava mais na frenologia, pois já havia sido refutada. Porém, a ideia evoluiu para Craniologia, que durante a era vitoriana foi muito utilizada para justificar o racismo e classificar “classes sociais” como mais ou menos inteligentes, capazes, limpas, violentas etc. Com Cesare Lombroso (1835-1909) foi desenvolvido a antropologia criminal que dizia que o formato de corpos podiam ser ou não um indicativo de tipos de criminosos.

Relações hoje vistas como absurdas, na época pareciam fazer sentido, como, criminosos com dedos compridos provavelmente seriam batedores de carteira. Havia a relação racista de que pessoas que não fossem brancas, ainda estavam associadas aos primatas, e seriam criminosos pois não haviam evoluído como o homem branco.
Vamos utilizar o exemplo da França para retratar como a Frenologia foi um impacto na sociedade. Durante 1830 a 1848 a França passava pelo período chamado “Monarquia de Julho”, período marcado por grandes transformações sociais. Na época, as classes mais ricas experimentaram um terror social, devido ao aumento de crimes e devido a pobreza que assolava as classes menos ricas.

Vários profissionais de dedicaram a estudar esse fenômeno como médicos, filósofos, cientistas e profissionais da lei. Em 1832 a epidemia de Cólera em Paris evidenciou a situação precária de moradia e vida das classes mais pobres da sociedade. Havia uma revista chamada Annales d'hygiène et médecine légale, em suas páginas foi observado uma maior preocupação por parte dos estudiosos em acabar com o crime, vícios, doenças e pobreza. Nessa revista foi definido a origem do problema, ela estava nesses bairros sujos onde proliferavam a cólera e os habitantes desses locais eram chamados de “classes perigosas”.
A ideia de classes perigosas na França evoluiu, e absorveu características da Frenologia, e conhecer a face da violência era tentador para as classes mais ricas. Nesse momento, os moradores de áreas empobrecidas da cidade eram vistos como selvagens, bárbaros, degenerados, logo a Frenologia passou a ser estudada pela criminologia, e na França a ideia de que a sanção penal deveria ter foco em quem era o delinquente ao invés do crime, se tornou popular.

Em 1831 surge a Sociedade Frenológica de Páris que debatiam e produziam diversos estudos sobre Frenologia. Essa ciência hoje é completamente refutada, porém a repercussão na França se repetiu em outros países com objetivos e métodos diferentes. Esses acontecimentos nos levam a refletir como um estudo completamente errôneo teve tanta visibilidade, a ponto de ser usado na Alemanha nazista como divisor de Arianos e não Arianos. Como a ciência pôde ser usada para permitir uma ideologia de superioridade de indivíduos e raças? Bom, podemos desculpar a ciência se
pensarmos que na época a estatística não era utilizada nos estudos.
Logo, se eu publicasse um estudo com uma análise de trinta, quarenta indivíduos, o estudo poderia ser aceito, hoje em dia é necessário uma investigação estatística muito extensa que não permitiria que isso ocorresse, porém essa garantia só existe enquanto tivermos a revisão por pares em revistas cientificas, e a garantia de imparcialidade destes.

Muito é discutido sobre a impossibilidade de imparcialidade, mesmo na ciência pois todos possuímos ideologias e a transpomos para tudo que fazemos, porém, é justamente por aceitarmos essa característica humana que devemos exigir que nossas ideias sejam julgadas, criticadas e corrigidas, se não como indivíduos que seja como cientistas. Ideias como darwinismo social, eugenia, frenologia, estudo do crânio, são o que hoje chamamos de pseudociências pois estamos sendo bondosos com os cientistas do passado, pois na época esses conceitos não eram considerados falsos. Foram desenvolvidos por cientistas reais com importâncias reais. E embora os métodos científicos estivessem incorretos, não podemos como seres humanos permitir que injustiças sociais voltem a ocorrer, com o aval de uma ciência parcial, moldada e falsa.

Charles Darwin escreveu em seu diário quando visitou o Brasil:
Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de seis ou sete anos de idade foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva… E essas são coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que Sua vontade seja feita na terra! O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte, ao pensarmos que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, fomos e somos culpados desse enorme crime.”(Charles Darwin, A Viagem do Beagle).

A origem das espécies de Darwin foi um grande avanço para os estudos da biologia, mas o darwinismo social não foi. Enquanto vivemos a história é difícil saber o que é justo e o que não é, mas não podemos esperar que daqui anos descubram as injustiças sociais do presente, e que só assim sejam corrigidas. Nenhum cientista será imparcial, porém é responsabilidade individual que nenhum cientista conscientemente force ideais em sua busca pela verdade, ou seja, em seus estudos produzidos. Se falharmos muito, que exista preconceito na sociedade, mas nunca mais em um artigo
científico.

Referências utilizadas:


https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40601996000100014
http://vampira.ourinhos.unesp.br/openjournalsystem/index.php/geografiaepesquisa/article/viewFile/167/90
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua/article/view/22265
http://www.sabbatini.com/renato/papers/Craniologia_Uma_Pseudociencia_Medica.pdf